Porta-voz de Javier Milei evitou esclarecer se o presidente tinha conhecimento da operação que levou o senador aos Estados Unidos. Brasil cobrou explicações diplomáticas, enquanto reportagens apontam possível participação de agentes e estruturas oficiais argentinas.
O governo da Argentina evitou esclarecer se o presidente Javier Milei ou integrantes de sua administração participaram da operação que permitiu ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixar o Brasil e chegar aos Estados Unidos. Questionado sobre o assunto em entrevista coletiva nesta terça-feira (3), o porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier, classificou como “irrelevante” a discussão sobre uma eventual ajuda do governo argentino.
Ravier não confirmou nem descartou que Milei tivesse conhecimento prévio da viagem. Segundo ele, Flávio ingressou na Argentina por meios regulares, apresentou documentação considerada válida pelas autoridades migratórias e não havia contra ele qualquer pedido de captura internacional comunicado ao país.
“Não sei se o presidente sabia ou não”, afirmou o porta-voz ao ser questionado sobre a participação de Milei. Em seguida, sustentou que a entrada do senador ocorreu formalmente e declarou que, para o governo argentino, o assunto estava encerrado.
A manifestação, porém, não respondeu diretamente às perguntas sobre eventual apoio político ou operacional à saída do parlamentar brasileiro.
Itamaraty cobrou explicações de Buenos Aires
O episódio já havia provocado movimentação diplomática entre Brasília e Buenos Aires. No dia 29 de outubro, a encarregada de negócios da embaixada argentina no Brasil, Maria Emília Cortés, foi recebida por representantes do Ministério das Relações Exteriores.
A iniciativa do Itamaraty, confirmada por fontes do governo brasileiro à Reuters, teve como objetivo pedir esclarecimentos sobre possíveis ações de autoridades argentinas durante a passagem de Flávio pelo país vizinho.
Segundo informações divulgadas à época, o senador utilizou o aeroporto de Puerto Iguazú, na região de fronteira, como ponto de saída para a viagem aos Estados Unidos. Reportagens da imprensa argentina apontaram a presença de integrantes do governo Milei e de uma escolta da polícia aeroportuária durante o deslocamento até o embarque.
O chanceler argentino, Pablo Quirno, por sua vez, declarou que não houve solicitação formal de explicações por parte do governo brasileiro. A divergência de versões acrescentou mais um capítulo à tensão diplomática entre os dois países.
Viagem teria envolvido operação logística
A saída de Flávio Bolsonaro ganhou repercussão depois que reportagens internacionais passaram a descrever uma operação com diferentes veículos, aeronaves particulares e rotas alternativas.
O jornal argentino Clarín publicou informações segundo as quais representantes norte-americanos teriam participado da organização da viagem e integrantes do governo argentino teriam oferecido apoio em território nacional. A reportagem também mencionou a utilização de mais de uma aeronave e medidas para evitar que o trajeto do senador fosse identificado antecipadamente.
Essas informações, entretanto, ainda precisam ser consideradas como relatos jornalísticos e alegações sob apuração, não como comprovação definitiva de participação institucional dos governos envolvidos.
O senador chegou a Miami em 28 de outubro, acompanhado da mulher e das duas filhas, depois de passar pela Argentina e pelo Equador.
Passaporte italiano entrou no caso
Outro ponto que passou a integrar a discussão é a documentação utilizada na viagem. De acordo com informações divulgadas pelo portal Metrópoles, Flávio teria embarcado rumo aos Estados Unidos utilizando seu passaporte italiano.
A informação ganhou relevância porque havia uma determinação judicial brasileira relacionada à entrega dos passaportes do senador e à proibição de deixar o território nacional. A utilização de um documento de outra nacionalidade, caso confirmada, tornou-se um dos aspectos a serem examinados pelas autoridades.
O governo argentino afirma que a entrada do parlamentar em seu território ocorreu com documentação regular e que não havia registro de ordem internacional de captura contra ele.
Investigação e repercussão diplomática
A viagem também é objeto de questionamentos no Brasil. Conforme informações publicadas pela Agência Brasil, Flávio deixou o país apesar de uma determinação judicial para entregar seus passaportes e não sair do território nacional, no contexto de investigações que envolvem suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A apuração sobre as circunstâncias da saída deverá esclarecer quem organizou o deslocamento, quem custeou a operação e se houve participação de agentes públicos ou estruturas oficiais estrangeiras.
O caso ocorre em um momento de relações diplomáticas delicadas entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. A participação do presidente argentino na campanha de Flávio e os atritos públicos entre Milei e Lula já haviam contribuído para o desgaste político entre Brasília e Buenos Aires.
Até o momento, a Casa Rosada mantém a versão de que a passagem do senador pela Argentina ocorreu dentro das regras migratórias. A eventual participação de autoridades argentinas na organização da viagem, entretanto, permanece sem esclarecimento público conclusivo.





















