Intervenção no Ueno Bank deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso às contas. Manifestantes exigem devolução dos depósitos, investigação sobre recursos públicos e impeachment do presidente Santiago Peña.
O fechamento das agências e a suspensão das operações do Ueno Bank desencadearam uma onda de protestos no Paraguai e transformaram uma crise financeira em um problema político para o governo do presidente Santiago Peña. Na terça-feira (3), centenas de pessoas ocuparam ruas do centro de Assunção, cobrando explicações e a devolução do dinheiro mantido na instituição.
A mobilização começou de forma pacífica nas proximidades do Panteão Nacional dos Heróis, mas ganhou tensão quando manifestantes tentaram avançar em direção ao Congresso Nacional. A Polícia Nacional impediu a passagem com barreiras de segurança, provocando confrontos, empurrões e correria.
Outro grupo se concentrou em frente à residência presidencial, conhecida como Mburuvicha Róga. Entre as reivindicações estavam a garantia de restituição integral dos depósitos, a proteção dos recursos previdenciários e a responsabilização das autoridades envolvidas na crise.
Durante os atos, também foram registrados pedidos de renúncia e de impeachment de Peña, além de críticas à atuação do Banco Central do Paraguai.
Banco Central determinou intervenção

Fachada do Ueno Bank
A crise se agravou depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu, por unanimidade, iniciar o chamado procedimento de resolução do Ueno Bank. A autoridade monetária informou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.
Na prática, a medida suspendeu os serviços bancários, interrompeu as operações digitais e determinou o fechamento das agências. Auditores deverão avaliar a situação patrimonial da instituição, identificar seus ativos e passivos e estabelecer os mecanismos para proteger os depositantes.
O Ueno Bank possui aproximadamente 2,9 milhões a 3 milhões de clientes, número que representa uma parcela expressiva da população adulta paraguaia. A paralisação deixou correntistas impossibilitados de realizar saques e transferências, aumentando a preocupação de famílias, comerciantes e aposentados.
Recursos públicos também estão envolvidos
Um dos aspectos mais delicados do episódio é a exposição de recursos públicos à instituição financeira. Segundo informações divulgadas pela Associated Press, o Ueno administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos de órgãos e fundos públicos.
Entre os valores envolvidos estão aproximadamente US$ 380 milhões relacionados ao sistema estatal de previdência e saúde. Já a agência EFE informou que o Instituto de Previsão Social (IPS) possui investimentos de cerca de US$ 355 milhões no banco e que a instituição financeira também era responsável pelo pagamento dos benefícios de aproximadamente 32 mil aposentados.
A situação provocou preocupação sobre a segurança do dinheiro dos trabalhadores e a continuidade dos pagamentos previdenciários. O IPS informou que os benefícios serão mantidos e que os aposentados que recebiam por meio do Ueno serão transferidos para outra instituição bancária.
Garantia de depósitos não cobre todos os valores
O Banco Central informou que o Fundo de Garantia de Depósitos poderá cobrir até 75 salários mínimos, equivalentes a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis, ou cerca de US$ 38 mil por depositante.
Estimativas preliminares indicam que essa proteção alcançaria aproximadamente 97% dos clientes. Para quem possui valores acima do limite garantido, entretanto, ainda existe incerteza sobre a recuperação integral dos recursos.
Como medida inicial, o regulador anunciou que os depositantes poderão receber até 10 milhões de guaranis, aproximadamente US$ 1,7 mil, descontadas eventuais dívidas com o banco. O calendário de pagamento ainda depende da implementação dos procedimentos de resolução.
Pelas regras paraguaias, a garantia dos depósitos deve ser paga dentro de 15 dias após a intervenção, prazo que pode ser prorrogado uma vez.
Executivos foram detidos e investigação foi aberta
A crise também chegou à esfera criminal. O Ministério Público paraguaio abriu uma investigação após denúncia apresentada pelo Banco Central e determinou a prisão de dirigentes e executivos ligados à instituição.
Pelo menos sete pessoas haviam sido detidas até a divulgação das primeiras informações sobre o caso, enquanto outras ordens de captura foram expedidas. Entre os investigados estão integrantes da direção e representantes do grupo controlador.
A apuração envolve suspeitas de lesão de confiança e outros possíveis delitos financeiros. O objetivo é esclarecer as operações que levaram à deterioração da situação patrimonial do banco e identificar eventuais responsabilidades.
Presidente do Banco Central renuncia
A repercussão atingiu também a cúpula da autoridade monetária. Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, apresentou sua renúncia a pedido de Santiago Peña, mas informou que permanecerá à frente da instituição durante a condução do processo de resolução do Ueno Bank.
Carvallo havia comandado anteriormente a instituição financeira, antes de assumir o Banco Central em 2023. A circunstância passou a ser questionada por parlamentares e setores da sociedade, diante das dúvidas sobre a fiscalização do banco.
Outro elemento que ampliou a pressão política foi a relação empresarial que Peña manteve com o Grupo Vázquez, controlador do Ueno. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, o presidente paraguaio permaneceu ligado ao grupo até março de 2025.
Peña afirmou que os responsáveis pela crise deverão responder à Justiça e defendeu a adoção de medidas para acelerar o pagamento dos depositantes e proteger os recursos públicos.
Oposição anuncia movimento por impeachment
A crise provocou reação de parlamentares oposicionistas, que anunciaram a intenção de iniciar um processo de impeachment contra o presidente e seu vice, Pedro Alliana. A iniciativa ainda depende de articulação e apoio político no Congresso, onde o partido governista Colorado mantém maioria.
Enquanto isso, o governo tenta conter os efeitos da crise e evitar que o caso comprometa a confiança no sistema financeiro paraguaio. A Associação de Bancos do Paraguai afirmou que o episódio é isolado e que as demais instituições continuam operando normalmente.
A União Industrial Paraguaia, por sua vez, cobrou esclarecimentos, investigação sobre possíveis falhas de fiscalização e renovação das autoridades do Banco Central.
O episódio deixa em aberto questões fundamentais: como uma instituição com milhões de clientes chegou a uma situação de insolvência, qual será o destino dos recursos públicos aplicados no banco e quanto os correntistas conseguirão recuperar.


