Quem vota é o povo. Quem decide é o povão

Por Helio Barboza

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19/09/2026

Helio Barboza

Editor de O JORNAL

Por Helio Barboza

O Brasil se prepara para mais uma eleição. No dia 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente e vice-presidente da República, governadores, deputados federais, deputados estaduais e dois senadores por estado. Serão seis escolhas na urna, em uma eleição que, mais uma vez, colocará diante do eleitor projetos, discursos, promessas e, sobretudo, o passado de quem pretende continuar ou assumir o comando do país.

Mas há algo que não pode ser esquecido: quem vota é o povo. Quem decide é o povão.

E talvez seja justamente por isso que seja necessário olhar para trás antes de apertar qualquer tecla.

Os últimos dez anos foram marcados por uma das fases mais turbulentas da história política recente do Brasil. Em 2016, Dilma Rousseff foi afastada definitivamente da Presidência depois de um processo de impeachment aprovado pelo Senado por 61 votos a 20. O Senado registrou oficialmente a condenação por crimes de responsabilidade relacionados às chamadas “pedaladas fiscais” e à abertura de créditos suplementares.

A interpretação política daquele processo continua profundamente dividida. Para seus críticos, tratou-se de um golpe parlamentar; para seus defensores, de um processo constitucional de responsabilização. O fato histórico, entretanto, permanece: Dilma deixou o cargo e Michel Temer assumiu a Presidência.

Veio então uma sequência de mudanças profundas na legislação e na política econômica. A reforma trabalhista de 2017, a reforma da Previdência de 2019 e outras medidas alteraram significativamente as regras que atingem trabalhadores e aposentados. O país entrou em uma fase de intenso confronto político e social.

E, paralelamente, surgiu uma nova arena: as redes sociais.

A política deixou de estar apenas nas ruas, nos palanques, nos jornais e na televisão. Passou a caber na tela de um celular. Notícias falsas, conteúdos manipulados, informações fora de contexto e versões parciais dos fatos ganharam velocidade inédita. A meia-verdade passou muitas vezes a disputar espaço com o fato — e, não raramente, a parecer mais convincente do que ele.

Depois veio o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, atravessado por conflitos políticos, econômicos e institucionais e, sobretudo, pela maior crise sanitária enfrentada pelo país em décadas.

Na pandemia de Covid-19, a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado apontou, entre outras questões, demora nas negociações para aquisição de vacinas. Em depoimento à CPI, o então secretário de Comunicação Fábio Wajngarten confirmou que uma carta da Pfizer, oferecendo doses ao Brasil, permaneceu por cerca de dois meses sem resposta do governo. O relatório final da CPI também apontou negligência na aquisição de imunizantes — conclusões contestadas por integrantes da base de apoio ao governo Bolsonaro.

O resultado humano da pandemia foi devastador. Mais de 700 mil brasileiros morreram em decorrência da Covid-19, uma tragédia que ainda permanece na memória nacional.

Em 2022, o eleitorado escolheu Luiz Inácio Lula da Silva para um terceiro mandato presidencial. Desde então, o governo passou a apresentar sua agenda como uma política de reconstrução econômica e social do país.

Há resultados objetivos que fazem parte desse balanço.

O Brasil voltou a ficar fora do Mapa da Fome da FAO, segundo o relatório divulgado em 2026, considerando os dados do triênio 2023-2025. A prevalência de subnutrição ficou abaixo de 2,5% da população, parâmetro utilizado pela organização para essa classificação.

No mercado de trabalho, a taxa anual de desocupação chegou a 5,6% em 2025, a menor da série histórica iniciada em 2012. A população ocupada alcançou 103 milhões de pessoas, também recorde da série. No primeiro semestre de 2026, o Novo Caged registrou ainda a criação de 921.645 empregos formais.

Na política comercial, o governo também contabiliza uma expansão significativa de mercados para produtos brasileiros. Em abril de 2026, o Ministério da Agricultura informou que o agronegócio havia alcançado 591 novas aberturas de mercado desde 2023.

Na área tributária, uma mudança importante entrou em vigor em 2026: a legislação passou a prever redução do Imposto de Renda para rendimentos tributáveis mensais de até R$ 5 mil, fazendo com que o imposto devido seja zerado nessa faixa, conforme a Lei nº 15.270/2025.

Há ainda programas de habitação, transferência de renda, educação, acesso a medicamentos e expansão de políticas públicas que integram a agenda do atual governo. Ao mesmo tempo, existem críticas, problemas e desafios econômicos e sociais que fazem parte do debate eleitoral e que precisam ser confrontados com dados — e não apenas com propaganda de um lado ou de outro.

É justamente aí que entra o eleitor.

A memória também vota

A eleição não deveria ser apenas uma disputa entre discursos de campanha. É também uma oportunidade para comparar governos, propostas e resultados.

O eleitor pode perguntar: quem governou? O que prometeu? O que entregou? Que leis apoiou? Que direitos defendeu ou restringiu? Como votou? Quem fiscalizou? Quem se beneficiou de determinada política? Quem ficou de fora?

E, sobretudo: o que mudou na vida das pessoas?

Porque política não é apenas Brasília. Política é o preço do supermercado, o salário no fim do mês, a vaga de emprego, a escola do filho, o atendimento no posto de saúde, a aposentadoria, a casa própria, a comida na mesa e a possibilidade de planejar o amanhã.

É também respeito às instituições, liberdade de expressão, responsabilidade com o dinheiro público e capacidade de conviver com quem pensa diferente.

A democracia não exige que todos pensem igual. Exige que todos possam escolher.

Por isso, quando outubro chegar, não será apenas mais uma eleição.

Será o momento em que cada eleitor poderá colocar na urna a sua própria avaliação dos últimos anos e a sua expectativa para os próximos.

Quem vota é o povo. Quem decide é o povão.

E dessa vez, como sempre em uma democracia, a decisão não pertence aos partidos, aos candidatos, aos influenciadores ou aos donos das redes sociais.

Pertence ao eleitor.