Povos nativos da Ecorregião de São Tomé

Por Arthur Soffiati

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24/07/2026

Arthur Soffiati

Intelectual por vocação e ofício, ecólogo militante, pioneiro da área de História Ambiental no país

Antes dos europeus, a América foi colonizada por povos provenientes da Ásia. Eles chegaram pelo círculo polar ártico e foram ocupando as Américas do Norte e do Sul. Assim, não podemos considerar esses povos como originários por não terem origem na America. A rigor, o continente em que se originou o Homo sapiens foi a África. No máximo, podemos dizer que os povos americanos são pioneiros que entraram no continente em torno de 19 mil anos passados, quando o nível do mar era mais baixo, permitindo uma ponte natural entre Ásia e América por onde os pioneiros passaram a pé ou de barco.

Esses povos foram descendo o continente e se adaptando aos diversos ambientes naturais, bem diferentemente dos europeus, que buscavam adaptar os ambiente à sua economia. Os esquimós se adaptaram a um ambiente gelado e até inventaram equipamentos para viver nele, como a capa anurak, os óculos contra a grande luminosidade do gelo e o caiaque.

Outros se adaptaram a ambientes desérticos e semidesérticos, a planícies e planaltos, a florestas tropicais e a rios. Arqueólogos e antropólogos têm mostrado que os conceitos de paleolítico, neolítico e civilização não podem ser inteiramente aplicados à América. Eles foram desenvolvidos a partir de culturas europeias e do Oriente Médio. A condição de  paleolítico se aplica a povos que vivem da coleta, pesca e caça, sendo, por isso, nômades. A de neolítico a povos que inventaram a agricultura, tornando-se sedentários. Essa condição lhes permitiu o desenvolvimento da cerâmica, do polimento de pedra, da cestaria, da metalurgia, da invenção da roda. Mesmo não abandonando a coleta, a pesca e a caça, esses povos contavam com a agricultura e a criação de animais como base econômica. Algumas sociedades neolíticas alcançaram o nível de civilização ao desenvolver sistemas de escrita, construir cidades e criar sociedades estratificadas. Ao criar o Estado, enfim.

Na América, houve sociedades que viviam da coleta, pesca e caça sem serem nômades, tal era a fartura de alimentos de um ambiente, como no caso do arquipélago de Santana, em Macaé. Houve sociedades que desenvolveram a cerâmica sem dependerem da agricultura, que podia ser conhecida, mas não era o sustentáculo delas. Povos que se adaptaram à floresta amazônica podiam desenvolver a cerâmica sem depender da agricultura, visto que a floresta e os rios forneciam-lhes alimento. Hoje, sabe-se que povos da Amazônia desenvolveram a silvicultura.

Entre essas sociedades, só em três lugares se alcançou o estágio de civilização: no México (Império Asteca), na América Central (maias) e nos Andes (vários povos, mas todos reunidos no Império Inca pouco antes da chegada dos europeus).

Esses mesmos povos vindos do norte chegaram ao recorte territorial usado pelo autor desses artigos: a Ecorregião de São Tomé, já delimitada entre os rios Itapemirim e Macaé, no litoral, e entre a planície e a zona serrana hoje correspondente ao sul da Zona da Mata Mineira. Presume-se que os primeiros habitantes desse território tenham sido os construtores de sambaquis. De fato, o ambiente era pródigo em moluscos e crustáceos, cujas carpaças eram usadas para formar montes sobre os quais viviam esses povos.

Povos falantes do tronco linguístico macro-jê colonizaram a região posteriormente, extinguindo ou incorporando-se aos sambaquieiros. No livro «Os goitacá: história dos povos indígenas no Espírito Santo», organizado por Júlio Bentivoglio e Henrique A.V. Costa, figura um mapa mostrando que, no sul do Espírito Santo, dominavam os Puri, Coroado, Coropó e Goitacá, com enclaves de povos de fala tupi, como Tupiniquim e Temiminó.            

Pelo relato de naturalistas e viajantes europeus, como Wilhem Ludwig von Eschwege, Maximiliano de Wied-Neuwied, Karl Friedrich Philipp von Martius, Johann Baptist von Spix e pelo engenheiro Alberto de Noronha Torrezão, a ecorregião de São Tomé era, toda ela, habitada por povos de língua macro-jê.

No sul do Espírito Santo, dominavam os puri. O atual Noroeste Fluminense e a Zona da Mata Mineira também eram dominados pelos puri ao lado dos coropós e até mesmo maxacali. O Norte Fluminense era a terra dos goitacá. O livro mencionado explica que seu domínio se estendia do sul do Espírito Santo até o cabo de São Tomé. Parece que esse povoamento chegava até a Região dos Lagos. Não se pode limitar a colonização desses povos aos limites estaduais de hoje, pois seus limites eram outros, mais baseados na cultura, na lingua falada.

“Os selvagens, até as próprias crianças de ambos os sexos têm grande habilidade para nadar. Trepam também nas mais altas árvores com muita presteza; para esse fim, amarram os puris os dois pés num cipó, o que não fazem os botocudos.” Maximiliano de Wied-Neuwied, 1815

José Ribamar Bessa Freire e Márcia Fernanda Malheiros reuniram as nações que formavam o enclave cultural mais ou menos correspondente à ecorregião em estudo no tronco linguístico macro-jê. Dos registros efetuados no período colonial e imperial, calcula-se que ele se dividia em 23 línguas, sendo 12 faladas na Capitanias/Províncias do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Sul de Minas Gerais.            

Se havia intercâmbios culturais de longo alcance entre regiões distantes e extremamente distintas, pode-se admitir que, na Ecorregião de São Tomé, contatos entre planície e serra se tornassem mais facilitados em vista da existência dos rios Itapemirim, Itabapoana, Muriaé e Pomba.

Distribuição dos povos indígenas no atual Espírito Santo. Fonte: BENTIVOGLIO, Julio e COSTA, Henrique A.V.

Cabe ainda observar que esses povos tinham história antes da chegada dos europeus. Assim, não se pode e não se deve considerar a história deles como a nossa pré-história. O que aconteceu em 1492 com Colombo e em 1500 com Cabral foi o encontro de histórias, sendo que a história dos povos pioneiros da América foi abalroada pela história dos europeus. Quase todos os habitantes pioneiros da Ecorregião de São Tomé foram extintos pelas doenças europeias e pelos massacres do estrangeiro.

Sugestão de leitura

BENTIVOGLIO, Julio e COSTA, Henrique A.V. (orgs) Os goitacá: história dos povos indígenas no Espírito Santo. Vitória: Milfontes, 2022.

FREIRE, José Ribamar Bessa e MALHEIROS, Márcia Fernanda. Aldeamentos Indígenas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 1997.