O litoral das capitanias do Espírito Santo e de São Tomé não mereceram dos navegantes europeus a mesma atenção dedicada a Pernambuco, Bahia, ao Recôncavo do Rio de Janeiro e a São Vicente. Estilaque Ferreira dos Santos credita esse desconhecimento ao perigo que representava o Baixio dos Abrolhos.
Para evitar encalhes e colisões com o fundo alto, os navios europeus do século XVI afastavam-se da costa na operação conhecida como “volta do mar”, para retornar a ela na altura de Cabo Frio, argumenta o autor.
A expedição de 1501 nomeou os acidentes da costa do Brasil. Para tanto, foi preciso navegar junto ao litoral a fim de facilitar o reconhecimento de baixios, cabos e rios. O Espírito Santo e o norte do futuro Rio de Janeiro foram mapeados. Os baixios foram reconhecidos em detalhes. O encalhe de navios era comum. A perda deles também, tanto nas costas africanas como nas americanas. O mapa da América do Sul no Atlas Miller, de 1519, assinala o rio das Virgens, Porto Seguro, rio do Brasil, monte Pascoal, rio de São Jorge, cabo do baixo Abrolhos e baía de Santa Luzia, entre o início e o fim dos Abrolhos. Parece que o baixio não impediu o trabalho de batismo dos acidentes do litoral, ainda que, posteriormente, eles tenham sido rebatizados. E o mapa continua dando nomes aos acidentes. Aparecem o Baixo dos Pargos, o Cabo de São Tomé, a Baía do Salvador, o Rio do Gado, o Cabo Frio e outros mais.

Baixo dos Pargos no Atlas Miller (1519)
Em 1500-1501, Pedro Álvares Cabral e Gaspar de Lemos não descobriam o Brasil nem o Espírito Santo nem o Rio de Janeiro porque eles não existiam com esses nomes. Os navegadores chegaram a terras ainda desconhecidas e batizaram pontos da costa. Assim, parece que o território correspondente ao Espírito Santo e ao norte do Rio de Janeiro já eram conhecidos antes de 1530. Era natural que ainda estivesse mal palmilhado. Contudo, é surpreendente que o mapa Miller, de 1519, duas décadas apenas após a chegada de Cabral, seja tão detalhado.
Dos perigos para a navegação, sem dúvida, sobressai-se o arquipélago dos Abrolhos (Abre Olhos, segundo os navegantes). Outro grande temor dos navegadores europeus era o Cabo de São Tomé, onde o baixio de areia avança muito no mar.
Em seu diário de navegação, Pero Lopes de Sousa o menciona na viagem que fez levando Martim Afonso de Sousa, seu irmão, que deveria receber a capitania de São Vicente logo a seguir. Nessa viagem vinha também Pero de Gois, futuro donatário da capitania de São Tomé. Pero Lopes de Sousa escreve Baixo dos Parguetes. Durante muito tempo, esse parcel será temido pelos navegantes.
Ele foi colocado como limite norte da capitania de São Tomé e limite sul da capitania do Espírito Santo. Pero de Gois e Vasco Fernandes Coutinho não conseguiram localizá-lo com precisão, escolhendo ambos uma divisa mais clara: o rio Itapemirim, que recebeu o nome de Rio de Santa Catarina. O acordo foi aprovado pelo rei de Portugal.
O Baixo dos Pargos ainda figurará em outras cartas do século XVI. Em 1585, o grande cartógrafo Luís Teixeira o registra em seu primoroso mapa do Brasil. No mapa de Michel Mercator, datado de 1620, ele está assinalado com o mesmo destaque merecido pelo arquipélago de Abrolhos.

Mapa de Michel Mercator (1620)
No século XVIII, as falésias da Formação Barreiras aparecem como Barreiras Vermelhas no lugar do baixio. Com o embate do mar sobre elas, a erosão forma paredões, pináculos e ilhas. As falésias são os paredões. Os pináculos são pontas isoladas no mar que revelam sua antiga ligação com as falésias. As ilhas derivam de partes mais resistentes das falésias ou pináculos que ficaram com suas partes altas emersas com o avanço do mar. E mais afastadas da costa.

Carta de Johann Baptiste Homann – 1725
Aos poucos, o Baixo dos Pargos foi desaparecendo da cartografia. Ele era importante para as naus dos séculos XVI, XVII e XVIII. Assim como Pero de Gois teve dificuldade em localizar o parcel indicado para ser a divisa entre as capitanias de São Tomé e do Espírito Santo, os geógrafos e historiadores também não conseguem localizá-lo. Usando o Google Earth, cremos que ele se situa entre os rios Itapemirim e Itabapoana a 21º 09’ de latitude sul e a 40º53’ de longitude oeste. Seu centro é a ilha das Andorinhas, a única entre os rios Itapemirim e Macaé. Ela resulta da erosão de falésias pelo mar. Em seu entorno, existem terras que deveriam aparecer mais nitidamente aos navegantes do século XVI. A ilha tem baixa altitude e seu nível está à flor do mar, chegando a elevações iguais a zero. De fato, um verdadeiro perigo para a navegação de cabotagem.


Baixo dos Pargos no Google Earth
Leituras
PEREIRA, Moacyr Soares Pereira. A navegação de 1501 ao Brasil e Américo Vespúcio. Rio de Janeiro: ASA Artes Gráficas, 1984.
SANTOS, Estilaque Ferreira dos. Prefácio a DAEMON, Basílio Carvalho. Província do Espírito Santo: sua descoberta, história cronológica, sinopse e estatística, 2ª edição. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2010.
SOUSA, Pero Lopes de Sousa. Diário de navegação. Cadernos de História, volume I. São Paulo: Parma, 1979.






