Entre os rios Itapemirim e Macaé: geologia

Por Arthur Soffiati

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12/05/2026

Arthur Soffiati

Intelectual por vocação e ofício, ecólogo militante, pioneiro da área de História Ambiental no país

Na década de 1990, cursando mestrado e doutorado sobre o Norte-Noroeste do estado do Rio de Janeiro, dei-me conta da unidade geológica, hídrica, botânica, faunística e etnográfica pré-europeia do Sul Capixaba e do Norte-Noroeste Fluminense, que ainda não existiam com esses nomes. Essa unidade continuou com a colonização europeia, agora também nos planos econômico, social e político. Enfim, no plano histórico. Unidade não é uniformidade.

Logo, descobri que essa unidade havia sido percebida por José Saturnino da Costa Pereira, em 1848. Ele escreveu: “Desde o paralelo das ilhas de Santa Ana até a ponta de Benevente, na Província do Espírito Santo, a praia se afasta consideravelmente da cadeia das montanhas do interior e deixa um intervalo, que vai, em alguns lugares, até 13 léguas, formando um terreno chato e muito baixo: este terreno se estende por baixo d’água e constitui o que os caboteiros chamam de Cabo de S. Tomé.” (“Apontamentos para a formação de um roteiro das costas do Brasil com algumas reflexões sobre o interior das províncias do litoral e suas produções”. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1848).

As ilhas de Santana formam um arquipélago em frente à foz do rio Macaé. Ao colocar a extremidade norte desse arco na ponta de Benevente, o autor passou um pouco dos limites. Acima do rio Itapemirim, a costa é pedregosa. Sem grandes conhecimentos de geologia, José Saturnino compreendeu a costa entre o arquipélago de Santana e a foz do Itapemirim melhor do que o geólogo canadense Charles Frederick Harrt, que em 1870, escreveu que a montanha se afasta da costa nesse trecho do litoral (“Geologia e geografia física do Brasil”. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941). Saturnino percebeu que a costa se afasta das montanhas. Harrt entendeu que as montanhas se afastam da costa. É bem mais lógico entender que o continente cresça sobre o mar com a formação de planícies do que entender o contrário: que a montanha caminhe para o interior, afastando-se do litoral. Notar que, em toda a extensão desta costa, só existem duas formações pedregosas: a ilha de Itaputera, na foz do Itapemirim, e o arquipélago de Santana, na foz do Macaé. No meio, só a ilha das Andorinhas, que é um pedaço de falésia no mar.

Essa ligação ficou mais clara com o avanço dos estudos de geologia. Supõe-se que, antes da elevação do nível do mar entre 12 mil e 5 mil anos passados, existia uma grande unidade de tabuleiros (Formação Barreiras) entre os rios Itapemirim e Macaé. O avanço do nível do mar, em fenômeno conhecido como transgressão marinha, separou a grande unidade de tabuleiros no vale do rio Paraíba do Sul, criando duas subunidades: a do Norte, entre os rios Itapemirim e Paraíba do Sul e a do Sul, entre a lagoa Feia e o rio Macaé.

Nas reentrâncias dessas duas unidades, formaram-se restingas. Na altura do rio Itabapoana, a restinga de Marobá empurrou a foz do rio para o sul. Entre a atual Barra do Furado e o rio Macaé, outra restinga preencheu uma reentrância dos tabuleiros meridionais. Essas duas restingas datam do Terciário, com idade estimada de 120 mil anos antes do presente.

Do rio Guaxindiba à atual Barra do Furado, formou-se a grande e recente restinga de Paraíba do Sul, com menos de 5 mil anos de idade, afastando os tabuleiros do mar. Quem percorre a costa sul do Espírito Santo, encontrará falésias descritas por naturalistas europeus que por elas passaram, como Maximiliano de Wied-Neuwied (1815) e Auguste de Saint-Hilaire (1818). Essas falésias estão sendo erodidas pelo mar. Já na unidade sul dos tabuleiros, não se encontram falésias porque a restinga de Jurubatiba a afastou do mar.

No plano geológico, começamos a perceber a unidade da região entre os rios Itapemirim e Macaé: ao fundo, as montanhas; em seguida, os tabuleiros; entre o rio Guaxindiba e Barra do Furado, uma grande planície fluviomarinha. De Barra do Furado ao rio Macaé, uma unidade de tabuleiros afastado do mar pela restinga de Jurubatiba.            

Fica o convite para o leitor acompanhar a aventura geológica, hídrica, botânica, faunística e humana nesta grande região que o autor batizou de Ecorregião de São Tomé, por situar-se o Cabo de São Tomé no centro deste subcontinente.

Ecorregião de São Tomé reconstituída pelo autor. Em ocre, as barreiras antes de 5 mil anos. Em verde, as duas restingas de 120 anos