No meio da sala surge uma árvore de Natal desmontada. Do lado dela, caixas de bolas coloridas e pisca piscas prateados e dourados, guardados do Natal passado. Sabe-se lá se ainda funcionam. Como duas crianças, minhas amigas brilham ao tocar cada coisa escondida naquelas memórias… o tanto de gente que não está mais aqui, os que estão mas vivem suas vidas, e nós três, juntas, sem saber o que fazer com tudo isso.
Há muito tempo meu Natal deixou de ser data pra ser espírito. Desse jeito, essas vinte e quatro horas se movem em mim, com cuidado, pra não estragarem as receitas de família, a tradição do presente na árvore, a reza na virada da noite feliz. Deus já me perdoou por eu ter desaprendido a rezar e em troca de me exigir os preceitos da bíblia – que já li toda – me deu o dom de ler as pessoas.
Aceito o convite da amiga e coloco uma bolinha colorida na árvore… e fico pensando em Cora Coralina… “nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”. Nesse ano tão árido, montar árvore de Natal é resistência, luta e coragem de dizer aos céus: estamos juntas, por tudo que foi, pelo que ainda será e pelos que não suportam a poesia…
Para Fernandinha e Lili


