Ecorregião de São Tomé : demarcando o território

Por Arthur Soffiati

/

26/05/2026

Arthur Soffiati

Intelectual por vocação e ofício, ecólogo militante, pioneiro da área de História Ambiental no país

Da margem direita do rio Itapemirim ao córrego de Marobá, dominam, na linha costeira, barreiras com falésias esculpidas pelo mar. A tendência é que sejam amoldadas sistematicamente por ondas e marés. Do córrego de Marobá à margem esquerda do rio Itabapoana, ainda dentro do território capixaba, uma reentrância nos tabuleiros foi preenchida por areia transportada por correntes marinhas, formando-se a restinga de Marobá, que empurrou a foz do Itabapoana para o sul. Da margem direita do rio Itabapoana ao pequenino rio Guaxindiba, os tabuleiros voltam a confinar com o mar. Agora em baixas altitudes, denotanto falésias já muito desgastadas pelo tempo.

Falésia e pináculo em São Francisco de Itabapoana. Eles formavam um só bloco que foi separado pelo mar. O pínáculo ruiu e a falésia continua sendo erodida. Esta é também a paisagem costeira do sul-capixaba 

A partir do rio Guaxindiba, uma grande restinga afastou os tabuleiros do mar. Eles correm por dentro até a margem esquerda do rio Paraíba do Sul, o grande divisor das barreiras. Elas foram corroídas pelo rio e pelo avanço do mar, que atingiu seu máximo há 5 mil anos. Só um pedaço desses tabuleiros aparecerá em Quissamã.

            Assim, a sucessão de formações geológicas na costa examinada é: tabuleiros no sul capixaba; restinga de Marobá; tabuleiros no norte fluminense; a grande restinga de Paraíba do Sul e a restinga de Quissamã. Não existe, assim, uniformidade na linha de costa que se estende do rio Itapemirim ao rio Macaé. Mas existe unidade na diversidade: formação pedregosa só as duas ilhas na foz do Itapemirim e o arquipélago de Santana na foz do rio Macaé. No mais, uma linha costeira lisa, com correntes marinhas fortes, com ondas violentas.

            Mas não basta a zona costeira para caracterizar a ecorregião de São Tomé. Precisamos olhar o interior dela. Levando em conta o relevo, os rios, a vegetação nativa, os primeiros povos a ocupá-la e a colonização europeia, essa ecorregião pode ser situada num polígono irregular que abrange a zona montanhosa da margem esquerda do Paraíba do Sul. Trata-se de montanhas baixas, com excessão do maciço do Pico da Bandeira. É um relevo muito antigo, com elevações muito erodidas. Na margem direita do Paraíba do Sul, a Serra do Mar, perto da costa, sofre um rebaixamento por onde passa o rio divisor. A sua frente e ao seu fundo, ele é cercado por formações geológicas muito antigas.

            Serras altas e baixas, tabuleiros e planície. Esses são os três patamares da Ecorregião de São Tomé. Mas atividades humanas criaram mais um patamar. Trata-se da plataforma continental, que começou a ser conquistada pela pesca e agora pela exploração de petróleo e gás natural. Numa escada, o degrau mais baixo costuma a ser o primeiro. Na ecorregião de São Tomê, (aliás, como em outras), o primeiro degrau é o mais alto (a serra), o segundo são os tabuleiros. O terceiro é a grande planície fluviomarinha e o quarto é o mar.

            Enfim, o polígono que demarca a Ecorregião de São Tomé atualmente abrage o sul do Espírito Santo, o Norte e o Noroeeste do Rio de Janeiro e o sul da Zona da Mata mineira. A título experimental, a linha que demarca este polígono começa em Marataízes dirigindo-se a Vargem Alta, Castelo, Venda Nova do Imigrante, Lajinha, Alto Caparaó, Caparaó, Espera Feliz, Carangola, Faria Lemos, Eugenópolis, Muriaé, Miraí, Dona Euzébia, Cataguases, Leopoldina, Pirapetinga, Santa Maria Madalena, Visconce do Imbé e Macaé. No mar, até a plataforma de exploração petrolífera da costa. Não é preciso rigidez. O polígono pode ser encolhido ou dilatado. O traçado proposto é apenas experimental.

Proposta de demarcação da Ecorregião de São Tomé