Presidente formalizou sua saída nesta quinta-feira (5), após perder sustentação política no próprio partido; crise do Ueno Bank, que deixou quase três milhões de clientes sem acesso às contas, provocou protestos e abriu caminho para o impeachment
O Paraguai enfrenta uma das mais graves crises políticas e financeiras de sua história recente. O presidente Santiago Peña anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia à Presidência da República, em meio à repercussão do escândalo envolvendo o Ueno Bank, instituição financeira que sofreu intervenção do Banco Central após problemas de solvência.
A decisão foi comunicada pelo próprio Peña em um vídeo divulgado nas redes sociais e posteriormente formalizada por meio de uma carta encaminhada ao Congresso Nacional. No documento, o presidente afirmou que tomou a decisão em um dos momentos mais difíceis de sua vida, alegando que buscava preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas.
“Também quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim”, declarou o mandatário em sua mensagem.
A renúncia ocorreu quando o Congresso discutia a abertura de um processo de julgamento político contra o presidente. A situação se agravou depois que parlamentares do próprio Partido Colorado, legenda de Peña, retiraram o apoio ao governo e passaram a respaldar a iniciativa de impeachment.
Câmara aprova impeachment mesmo após renúncia
A saída anunciada por Peña não encerrou imediatamente a crise institucional. Pouco depois da formalização da renúncia, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, com 78 votos favoráveis, o prosseguimento do processo de impeachment.
A decisão encaminhou a acusação ao Senado, que terá a responsabilidade de decidir se leva adiante o julgamento político ou se aceita a renúncia presidencial.
A expectativa, conforme a programação divulgada nesta quinta-feira, era que o Senado examinasse a situação ainda no final da tarde, inclusive a formalização da saída do presidente.
Com a renúncia aceita, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o comando do país e completar o mandato, previsto para terminar em 15 de agosto de 2028.
Ueno Bank no centro do escândalo
O estopim da crise foi a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, instituição financeira de grande presença no mercado paraguaio.
A medida foi adotada após a identificação de irregularidades na situação financeira do banco, incluindo problemas na contabilização de ativos e operações de crédito. Depois dos ajustes realizados nos demonstrativos financeiros, o índice de solvência da instituição ficou abaixo do mínimo exigido pela regulamentação.
A intervenção provocou a suspensão das operações e deixou aproximadamente 2,9 milhões de clientes sem acesso normal às próprias contas, incluindo trabalhadores, aposentados e pessoas que mantinham suas economias na instituição.
O banco também administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, provenientes de diferentes órgãos e instituições do Estado paraguaio.
O caso ganhou dimensão política porque Santiago Peña teve participação societária no Grupo Vázquez, conglomerado que controlava o banco até março de 2025. Também foram levantados questionamentos sobre a relação entre o crescimento da instituição, recursos públicos depositados nela e decisões de fiscalização durante o atual governo.
O presidente negou irregularidades em suas relações com a instituição e sustentou que eventuais responsabilidades deveriam ser apuradas pelas autoridades competentes.
Protestos e prisão de executivos
A crise provocou manifestações em Assunção e em outras localidades paraguaias. Clientes, aposentados, trabalhadores e manifestantes foram às ruas cobrar explicações e exigir garantias para a recuperação dos valores mantidos no banco.
A situação também atingiu funcionários da instituição, que enfrentaram incertezas sobre salários e continuidade dos empregos.
As investigações avançaram com a detenção de oito executivos ligados ao Ueno Bank, enquanto outros 27 envolvidos foram denunciados por supostos crimes relacionados às operações financeiras da instituição.
O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também deixou o cargo em meio à repercussão do caso, ampliando a dimensão institucional da crise.
Paraguai entra em novo capítulo político
A renúncia de Santiago Peña representa uma mudança profunda no cenário político paraguaio. Eleito em 2023 pelo Partido Colorado, o presidente assumiu o governo com a proposta de manter a estabilidade econômica e fortalecer a posição do Paraguai no cenário internacional.
Agora, a crise bancária e os questionamentos sobre a relação entre o sistema financeiro e o poder público colocam o país diante de um período de incertezas.
A atenção se volta para a decisão do Senado sobre a renúncia e o processo de impeachment, além das medidas necessárias para garantir que os clientes do Ueno Bank possam recuperar seus recursos.
O episódio também provoca repercussão internacional, especialmente entre investidores e países vizinhos, incluindo o Brasil, que mantém importantes relações comerciais e financeiras com o Paraguai.
A sucessão presidencial deverá ser o primeiro passo para reorganizar o governo, mas a recuperação da confiança no sistema financeiro e a apuração das responsabilidades relacionadas ao caso Ueno Bank serão desafios centrais para as autoridades paraguaias.
*Fontes para elaboração da matéria – Reuters, Associated Press, EFE, UOL e ABC Color.


