Uma experiente banda carnavalesca chegou numa pequena cidade do interior, onde animariam as tradicionais noites de carnaval, como já faziam há alguns anos.
No repertório, tocavam samba, um pouco de axé, e principalmente, as famosas marchinhas – que eram as preferidas pelos foliões do local.
Porém, naquela ocasião, havia ocorrido uma reunião um dia antes das apresentações, onde os músicos da banda ficaram sabendo que um movimento de representantes do “politicamente correto”, teriam analisado as letras das marchinhas e decidido quais seriam apresentadas nos bailes de Momo.
— A primeira marchinha que vocês não poderão tocar é “Cabeleira do Zezé”, pois tem conteúdo homofóbico e violento, principalmente quando questiona a sexualidade do Zezé e incita cortar seu cabelo à força. A segunda marcha é “O teu cabelo não nega”, que explicitamente possui conteúdo racista e machista. A terceira marchinha banida por nós é “Maria Sapatão“, o próprio nome da música absurdamente já remete à homofobia ao tratar uma mulher com orientação sexual diferente à imposta pela sociedade como algo bizarro que mereça aplausos!
Os músicos apenas ouviam sem dizer nada.
— Também fica proibida a marcha “ Índio quer apito”, por ridicularizar os povos originários que já estavam em nosso país muito antes do carnaval ser inventado. Outra marchinha que não poderão tocar de jeito algum é “Mamãe eu quero”, já que possui duplo sentido e faz apologia ao sexo!
Depois de duas horas de reunião, onde quase todas as marchinhas tradicionais que a banda sempre tocou foram censuradas pelos baluartes do politicamente correto, o líder da banda pede a palavra.
— Mas, se não podemos tocar as tradicionais marchinhas carnavalescas, o que vamos tocar?
— Não se preocupe – disse o politicamente correto – montamos um repertório com músicas que são sucesso do momento, principalmente entre jovens e crianças, com certeza vai agradar todos nesse carnaval.
E foi assim que as noites carnavalescas ficaram sem as tradicionais marchinhas, agora consideradas ofensivas, sexualizadas, homofóbicas e machistas, entretanto, os foliões puderam ouvir e dançar ao som de sucessos atuais:
“…Combo de whisky, narguilé e gelo… vou te chupar, chupar teu pescoço, te chupar todin, chupar, chupar, chupar com gosto…”;
“…Oh, de biquíni, de marquinha de fitinha, pede tapa na bundinha… ah, se eu fosse esse canudinho, oh, oh, queria ‘tar na sua boca, pra tu tomar toda, pra tu tomar toda, balança, balança (pra tu tomar) … ” ;
“…Ela tem um bundão, tão lindinho, e uma cinturinha, fininha… Tu é gostosa e não é pouco (ah, é?), Fala o que tu quer mulher! (Tá bom), passa ólhinho aqui no meu corpinho, amor? Pra eu me bronzear nesse calor, Então desliza, desliza a mão no meu popô, Desliza, desliza a mão no meu popô (vem)…”;
“… tava lá no fluxo, encontrei a novinha no grau, sabe o que ela quer? Pau, pau, pau, ela quer pau…”

