Depois da confusão com Nossa Senhora Aparecida, campanha de Flávio Bolsonaro convoca Padre Kelmon para explicar que está tudo bem com a fé
A campanha de Flávio Bolsonaro resolveu combater a crise religiosa com uma receita peculiar: reuniu lideranças de diferentes religiões em uma live e escalou Padre Kelmon, o personagem que marcou a eleição de 2022 e ganhou nas redes o apelido de “Padre da Shopee”.
Se a intenção era apagar o incêndio provocado pela polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida, a escolha do “especialista” certamente não passou despercebida.
A campanha nega que Flávio tenha defendido a retirada do título de Padroeira do Brasil. A informação que circulou nas redes foi considerada falsa pelo TSE.
Mas, na política brasileira, quando a fumaça sobe, sempre aparece alguém com um extintor.
Desta vez, veio de batina.
Edição eleitoral 2026: “Nossa Senhora Aparecida, fique tranquila. Chamamos o Padre Kelmon.”
A campanha chamou de estratégia de defesa da liberdade religiosa. A internet, naturalmente, ganhou mais um capítulo para comentar.
BETS: quatro anos no limbo — e uma epidemia que veio depois
As bets não nasceram no governo Lula. A Lei 13.756/2018, aprovada no governo Michel Temer, legalizou as apostas de quota fixa e determinou que o setor fosse regulamentado pelo governo federal.
A regulamentação, porém, não foi concluída durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro. Nesse período, o mercado cresceu com empresas sediadas no exterior e sem a estrutura regulatória que posteriormente seria criada.
Foi no governo Lula que veio a regulamentação, por meio da Lei 14.790/2023, estabelecendo regras para empresas, apostadores, tributação, fiscalização e publicidade. Desde janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente.
Mas regular não significou resolver o problema. A explosão das apostas online trouxe para o debate uma questão que vai muito além da arrecadação: endividamento, compulsão e impactos sobre a saúde mental das famílias. Um estudo divulgado em setembro de 2026 estimou em R$ 38,8 bilhões anuais os danos sociais associados às apostas, embora representantes do setor contestem a metodologia utilizada.
E a dimensão do problema chegou a tal ponto que, em 25 de setembro de 2026, o governo federal anunciou medidas para proibir as bets em todo o país, numa mudança radical em relação ao modelo regulatório criado anteriormente.
Ou seja: a história das bets tem três capítulos bem diferentes — legalização com Temer, ausência de regulamentação efetiva durante Bolsonaro e regulamentação com Lula. O debate atual é outro: se regular foi suficiente diante do tamanho do problema social provocado pela expansão das apostas.
A conexão que existe — e a que não existe
Há um detalhe nessa história que não pode ser ignorado. O projeto que voltou a circular nas redes realmente existiu. O projeto foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal e pastor evangélico Victório Galli, cujo o texto pretendia restringir na legislação a referência a Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira do Brasil”. A proposta acabou rejeitada e arquivada em 2008.
Galli, porém, não é um personagem completamente estranho ao universo bolsonarista. Depois de deixar a Câmara, ele foi nomeado assessor especial da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro, em 2019, permanecendo no cargo por alguns meses.
Há ainda um antecedente de outra natureza: em 1995, o bispo da Igreja Universal Sérgio von Helder protagonizou o episódio conhecido como “chute na santa”, ao agredir uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.
É aí que está a conexão política que alimentou a atual polêmica: o autor do projeto antigo foi, posteriormente, integrante do governo Bolsonaro.
O curioso é que um projeto morto e enterrado desde 2008 ressuscitou justamente no meio de uma eleição presidencial — e acabou obrigando a campanha de Flávio a montar uma operação de emergência para explicar sua relação com os católicos.
E, para completar o roteiro, a solução encontrada foi chamar Padre Kelmon.
Parece que ‘a emenda ficou pior que o soneto’. A política brasileira realmente não economiza no elenco.















