Como já visto, o sistema hídrico mais caudaloso da Ecorregião de São Thomé é a bacia do Paraíba do Sul. O recorte da Ecorregião de São Thomé é irrigado pelos rios Pomba, Grande (parcialmente) e Muriaé, como afluentes e com seus subafluentes do grande rio. A zona costeira da ecorregião pode ser dividida em três terrenos. O primeiro se estende do rio Itapemirim (ES) ao rio Guaxindiba (RJ). A costa, neste trecho, é, toda ela, formada por falésias, o que indica a existência de um terreno de tabuleiros. A segunda é constituída por uma grande restinga que se estende do rio Guaxindiba ao canal da Flecha. A terceira é também formada pela grande e antiga restinga de Jurubatiba, que se estende da foz do canal da Flecha ao rio Macaé.
O primeiro estirão é irrigado por riachos com nascente na zona serrana ou nos tabuleiros, cruzando estes últimos e desembocando no mar. Pelo menos quando da chegada dos europeus à América. O segundo é constituído por uma grande e nova restinga formada pelo rio Paraíba do Sul conjuntamente com o mar. Esse estirão conta apenas com os rios Paraíba do Sul e Iguaçu a desembocarem nele. Na verdade, quem comanda (ainda) quase todos os sistemas hídricos desse trecho costeiro é o Paraíba do Sul, sobretudo pela margem direita, alagando lagoas e desembocando pela foz atual, com os antigos braços de Gruçaí, Iquipari e Açu nas cheias extraordinárias. Com o grande processo de drenagem efetuado pelo DNOS, entre 1940 e 1990, os braços de Gruçaí e Iquipari consolidaram suas barras. Aconteceu o mesmo com o Iguaçu. Os três se transformaram em lagoas.
O terceiro estirão, do canal da Flecha ao rio Macaé, não sofreu muito com as obras do DNOS. Nele, há dois tipos de lagoa: 1- as perpendiculares à costa e 2- as paralelas à costa. As primeiras são antigos riachos barrados pela grande restinga de Jurubatiba, enquanto que as segundas são arredondas e com idade recente.
Examinemos brevemente o primeiro estirão costeiro. De norte para sul, sucedem-se, como principais, os córregos de Calado, Funda, Dantas, Siri, Lagoinha, Pitas, Mangue, Caculucage, Quartéis, Tiririca, Boa Vista e Marobá.

Barra da Lagoa de Marobá (2025), Foto do autor
Depois do rio Itabapoana, já no estado do Rio de Janeiro, existe outra sequência de córregos do mesmo padrão. As lagoas Salgada e Doce são dois riachos com barra na Enseada do Retiro, onde se efetuou a primeira tentativa de colonização europeia da ecorregião com a Vila da Rainha. A salgada não chega mais ao mar. A Doce conseguiu uma foz alternativa no período de chuvas intensas. Logo abaixo, correm os riachos de Guriri e Tatagiba, este o maior de todos dentro do Rio de Janeiro. Mais abaixo, os córregos de Buena, Barrinha e Manguinhos. Passado o pequeno rio Guaxindiba, cuja nascente está na zona serrana, a sequência de córregos de tabuleiros segue até o rio Paraíba do Sul, sem, contudo, alcançarem o mar. Todos eles foram barrados pela grande restinga de Paraíba do Sul e se transformaram em lagoas alongadas.
Hoje, esses cursos d’água são chamados de lagoas porque a vazão hídrica perdeu competência para manter suas barras abertas e porque a força do mar contribuiu para vedá-las com areia. Mas, examinando-se mapas antigos ou mesmo o Google Earth, é perfeitamente visível que se trata de antigos cursos d’água barrados, como é também o caso da lagoa do Meio, cercada pelo núcleo urbano de Marataízes. Outro indicador da comunicação com o mar que esses córregos mantinham outrora são manguezais em quase todos eles. Sabe-se que o manguezal é um ecossistema típico de estuários tropicais. Sabe-se também que um estuário se forma pelo encontro de água doce com água salgada.

Lagoa de Buena (RJ) com bosque de manguezal hoje removido – Foto do autor
Hoje, as barras dessas “lagoas” se abrem naturalmente com chuvas volumosas, fortes ressecas ou por ação humana. Como os estuários estão desequilibrados, os manguezais também mostram desequilíbrios: estão menores ou confinados ou comprometidos por espécies de plantas invasoras. Na lagoa do Meio, esse ecossistema despareceu totalmente.
Quanto ao segmento costeiro entre o canal da Flecha e o rio Macaé, os antigos córregos de Preta, Paulista, Carapebus, Funda e Jurubatiba tiveram suas barras naturalmente fechadas pela formação da restinga de Jurubatiba em torno de 120 mil anos atrás. Elas deviam funcionar como riachos, com estuários e manguezais. Observando um mapa, é possível encontrar suas nascentes na zona de tabuleiros. As barras só abrem para o mar por ação humana ou por fortes ondas do mar.

Lagoas da Restinga de Jurubatiba




