
Quentes e vigilantes, às calçadas cachoeirenses, familiares aos nossos antigos pés, se deixavam caminhar. Hoje, estão desgastadas com o descaso dos atuais moradores.
Desatentos, não vêem que o Rio Itapemirim está triste e se sentindo só. Confessou saudade das remadas carinhosas dos botes, das tarrafas, das piabas e dos olhares encharcados de enchentes.
O Rio amigo, cheio de amor, que faz travessia em nossos corações de pedra, derrama lágrimas serpenteadas lamentando: “roupa suja se lava em casa”. Estou cansado de nadar, nadar, e morrer na praia.
Antenado, aproveitando o desabafo do Rio, o sensível Pico do Itabira, também descontente, reclama: o descaso é geral, infelizmente não sou mais admirado e retratado como antes.
Preocupadas, às calçadas guardiãs, com intimidade, apelaram para o morador mais ilustre e conhecedor do chão da cidade: o peregrino cachoeirense, Neném Doido. Em linguagem veloz, própria de oração, com as mãos agitadas e fervorosas, Neném intercede a São Pedro.
Este, contrito, respeitando os patrimônios locais, no atributo de padroeiro da cidade, com as chaves nas mãos, anunciou com voz empostada de locutor na ZYL-9, Rádio Difusora de Cachoeiro de Itapemirim: no próximo dia 29 de junho, a infiel população cachoeirense está intimada a fazer penitência pelos “óbvios e ululantes” descasos. Reunida ao meio-dia, na Praça Jerônimo Monteiro, em silêncio questionador, subirá ajoelhada a ladeira da rua Costa Pereira, em direção a Catedral de São Pedro.
Os fiéis penitentes, em fila Indiana, no pátio da Catedral, seriam redimidos dos graves descasos. Já os infiéis não penitentes, que deram de ombros e zombaram dizendo: “me incluam fora dessa”, a mando do iluminado prefeito que faz até chover, não receberão nem a extrema-unção.
Sem mais delongas, Odorico. O prefeito mais “Bem Amado” do Brasil.


