Um relatório da OMS alerta que mais de 1 bilhão de jovens correm o risco de sofrer perda auditiva – Foto: Pixabay
O uso de fones de ouvido — cada vez mais comum entre jovens e adultos — tornou-se uma prática diária que, embora aparentemente inofensiva, pode estar associada a um risco crescente para a saúde auditiva. A questão é importante: ouvir música por mais de uma hora por dia pode afetar a audição?
Para Valentina Ávila, fonoaudióloga e especialista em aparelhos auditivos da GAES Amplifon, a resposta aponta para um problema silencioso que está progredindo sem que muitos percebam.
— Milhões de jovens correm o risco de sofrer perda auditiva devido ao uso constante de fones de ouvido — alerta ela.
A declaração dela está em consonância com os dados globais. De acordo com o relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre audição, mais de um bilhão de jovens adultos correm o risco de sofrer perda auditiva permanente e evitável, em grande parte devido à exposição a sons altos em ambientes de lazer.
A dimensão do problema é ainda maior. A OMS prevê que, até 2050, quase 2,5 bilhões de pessoas terão algum grau de perda auditiva e mais de 700 milhões precisarão de reabilitação.
O risco reside nos hábitos diários
Longe de se tratar de exposições extremas, o problema pode estar em rotinas aparentemente normais. Deslocamentos diários com música, jornadas de trabalho com fones de ouvido ou longas sessões de entretenimento podem resultar em várias horas de exposição contínua.
— As pessoas usam fones de ouvido constantemente por uma a três horas, por exemplo, a caminho da universidade ou do trabalho para casa. Essa constância afetará seriamente a saúde auditiva delas no futuro — explica Ávila.
A especialista alerta que não apenas o tempo importa, mas também o volume.
— Ouvir sons acima de 30 decibéis por mais de uma hora por dia coloca sua audição em risco. Sua saúde auditiva está em risco todos os dias — destaca ela.
Isso está em consonância com as recomendações de saúde pública da OMS, que enfatiza a necessidade de promover “estratégias de audição segura” para reduzir a exposição a sons altos durante atividades recreativas.
Sinais de alerta que muitos ignoram
Um dos maiores problemas é que a perda auditiva geralmente progride de forma gradual e silenciosa. Quando os sintomas aparecem, o dano já pode ser significativo.
Ávila lista alguns dos sinais mais frequentes que devem soar o alarme:
- Você pode sentir zumbido nos ouvidos, conhecido como tinnitus.
- Dificuldade para ouvir em ambientes ruidosos.
- Precisar aumentar o volume da TV mais do que o normal.
- Não entender conversas ou pedir constantemente para as pessoas repetirem o que disseram.
- Usar o telefone no viva-voz porque não consegue ouvir bem.
Esses sintomas estão de acordo com as consequências descritas pela OMS para a perda auditiva não tratada, que incluem dificuldades de comunicação, isolamento social e até declínio cognitivo.
Embora a perda auditiva seja frequentemente associada ao envelhecimento, especialistas alertam que há um número crescente de casos em jovens. No entanto, é justamente esse grupo que menos procura ajuda.
Em contrapartida, o sistema educacional está começando a desempenhar um papel fundamental.
— Muitas escolas já exigem exames audiológicos. Isso é muito bom, porque o acompanhamento anual é absolutamente essencial — acrescenta.
A OMS apoia essa necessidade, recomendando a triagem sistemática em populações de risco, incluindo crianças, estudantes e pessoas frequentemente expostas a ruídos.
O dano é reversível?
Uma das maiores preocupações é se a audição pode ser recuperada após ser afetada. A resposta, segundo especialistas, não é animadora.
— Uma vez ocorrida a perda auditiva, não podemos revertê-la. Um aparelho auditivo simplesmente impede sua progressão — explica Ávila.
O risco de não agir a tempo é a perda da chamada “memória auditiva”, que afeta diretamente a compreensão da linguagem. “É quando as pessoas deixam de entender, não compreendem e a comunicação se torna mais difícil”, acrescenta.
Prevenção: a única ferramenta eficaz
Diante de um problema que nem sempre é reversível, a prevenção se torna a principal estratégia. Para Ávila, a recomendação é clara: “Consulte um profissional pelo menos uma vez por ano, tenha ou não sintomas. Isso é fundamental para a prevenção.”
Ele também enfatiza a moderação no uso de aparelhos auditivos.
— Idealmente, eles devem ser usados por no máximo uma hora por dia e em volumes baixos, entre 20 e 30 decibéis.
A OMS concorda que muitas causas de perda auditiva são evitáveis. De fato, estima-se que quase 60% dos casos em crianças poderiam ser prevenidos com medidas de saúde pública, enquanto em adultos, fatores como a exposição a ruídos altos continuam sendo um dos principais fatores de risco modificáveis.
Em um mundo cada vez mais conectado pelo som, o ouvido parece ser um dos órgãos mais vulneráveis. O problema não é apenas o quanto ouvimos, mas como e por quanto tempo. E nesse delicado equilíbrio, a prevenção e a detecção precoce podem fazer a diferença entre ouvir bem e perder a capacidade de ouvir.


