Manifestantes denunciam risco à soberania peruana enquanto governo de Keiko Fujimori defende aliança liderada pelos Estados Unidos contra o crime organizado
A chegada do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ao Peru foi acompanhada por manifestações contrárias à aproximação do governo de Keiko Fujimori com Washington e, principalmente, à entrada do país no chamado “Escudo das Américas”, iniciativa de segurança lançada pelo presidente Donald Trump.
Na noite de quarta-feira (9), poucas dezenas de manifestantes ligados a organizações de esquerda se concentraram na Praça San Martín, no centro histórico de Lima, carregando cartazes contra a presença de Rubio e a participação peruana na coalizão. Entre as palavras de ordem estavam “Fora Marco Rubio do Peru”, “Fora ianques da América Latina” e “Não ao Escudo das Américas”.
Os manifestantes acusaram os Estados Unidos de tentar ampliar sua influência política e estratégica na América Latina. Para os grupos que participaram do protesto, a adesão ao mecanismo representa uma aproximação excessiva com Washington e pode comprometer a autonomia do Peru em questões de segurança e política externa.
Rubio chega a Lima em momento de tensão
Rubio desembarcou em Lima na noite de quarta-feira, depois de passar pela Colômbia e pelo Equador. O secretário de Estado foi recebido pelo chanceler peruano, Carlos Espá, e pelo embaixador dos Estados Unidos no país, Bernie Navarro.
Nesta quinta-feira (10), Rubio se reúne com a presidente Keiko Fujimori, em uma agenda que terá como temas centrais segurança, combate ao crime organizado transnacional, defesa, investimentos, comércio bilateral e a resposta ao fenômeno El Niño.
A visita ocorre justamente quando o Peru inicia uma nova etapa de aproximação com a administração Trump.
Em artigo publicado antes da viagem, Rubio confirmou a incorporação peruana ao “Escudo das Américas” e afirmou que os dois países passarão a sincronizar esforços para enfrentar ameaças transnacionais e regionais. O secretário classificou o Peru como importante aliado dos Estados Unidos.
O que é o “Escudo das Américas”
Criada em março de 2026, a iniciativa reúne países latino-americanos e caribenhos em torno de uma estratégia de cooperação contra narcotráfico, organizações criminosas transnacionais, lavagem de dinheiro e outras ameaças à segurança regional.
A iniciativa é uma das principais apostas da administração Trump para ampliar a cooperação de segurança no continente e também é vista por analistas como instrumento de fortalecimento da influência norte-americana na região. Colômbia e Peru aderiram recentemente, enquanto países como Brasil e México permanecem fora da coalizão.
Para o governo peruano, entretanto, o objetivo é essencialmente fortalecer a capacidade de combate ao crime.
O chanceler Carlos Espá afirmou que a participação no mecanismo permitirá ao Peru reforçar suas fronteiras e ampliar a cooperação contra organizações envolvidas com narcotráfico, lavagem de ativos e tráfico de pessoas.
Segundo Espá, a iniciativa contará com apoio logístico, operacional e de inteligência dos Estados Unidos.
Congresso também cobra explicações
A resistência ao acordo não está restrita às ruas de Lima. O próprio Congresso peruano decidiu cobrar esclarecimentos do governo sobre os termos da adesão.
O chanceler Carlos Espá deverá comparecer ao plenário do Senado em 16 de setembro para explicar a natureza jurídica do ingresso do Peru no “Escudo das Américas”, os compromissos assumidos pelo Estado e suas implicações políticas e operacionais.
A convocação foi aprovada por unanimidade, com 52 votos, e também questiona a compatibilidade da adesão com a soberania nacional e com as competências constitucionais do Congresso.
O movimento evidencia que, embora o governo Fujimori defenda a aproximação com Washington como instrumento de combate à criminalidade, existem setores políticos preocupados com os limites e as consequências da nova aliança.
Segurança, China e influência regional
A visita de Rubio também ocorre em meio à disputa de influência entre Estados Unidos e China na América do Sul.
O Peru mantém fortes relações comerciais com Pequim, inclusive por meio do porto de Chancay, empreendimento de grande importância estratégica e ligado a investimentos chineses. Washington vem tentando ampliar sua presença econômica e política na região, enquanto a administração Trump procura estreitar relações com governos ideologicamente alinhados.
A viagem de Rubio pela Colômbia, Equador e Peru reforça essa estratégia. Os três países são governados atualmente por lideranças de direita e estão entre os parceiros mais próximos de Washington na América Latina.
Protestos revelam disputa sobre o futuro da região
O contraste observado em Lima resume a disputa que começa a ganhar força em torno do “Escudo das Américas”.
De um lado, o governo peruano sustenta que a cooperação com os Estados Unidos representa uma oportunidade para ampliar inteligência, recursos e capacidade operacional no combate ao crime organizado.
Do outro, setores da oposição e movimentos sociais enxergam a iniciativa como parte de uma estratégia de expansão da influência norte-americana e questionam até que ponto a cooperação poderá avançar sem afetar a soberania peruana.
Enquanto Rubio discute com Keiko Fujimori uma nova etapa das relações entre Lima e Washington, as ruas de Lima deixam claro que a adesão ao “Escudo das Américas” não será apenas uma questão de segurança: tornou-se também um debate político sobre soberania, influência estrangeira e o lugar do Peru no novo tabuleiro geopolítico latino-americano.








