Pesquisa mostra que quase 100 baleias jubarte nasceram no litoral capixaba em 2025

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Quase 100 baleias-jubarte nasceram no litoral do Espírito Santo em 2025, mostra pesquisa inédita — Foto: Divulgação/Amigos da Jubarte

Matéria publicada no G1 nesta semana, mais uma vez confirmou que a costa capixaba é mesmo um dos berços preferidos como nascedouro das baleias-jubarte. Mas, pela primeira vez, pesquisadores conseguiram estimar quantos filhotes nasceram na região em uma única temporada. Segundo os pesquisadores, ano passado, 2025, foram registrados até 97 nascimentos identificados.

Além dos filhotes com CPF capixaba, a pesquisa inédita revelou a presença de cerca de 2 mil baleias, em média, todos os anos, entre 2023 e 2025, passando pelo litoral do estado, em busca de águas mais quentes para se reproduzir.

A reportagem entrevistou pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e integrantes do projeto Amigos da Jubarte/Jubarte.Lab, responsáveis pelo monitoramento.

Eles explicaram que o trabalho ajuda a entender o comportamento das baleias que usam o litoral capixaba e serve para orientar ações de preservação e redução de impactos no mar.

Além disso, o estudo conseguiu identificar quantos animais realmente nascem no litoral do Espírito Santo durante a temporada, que vai de junho a novembro.

“Agora, a gente pode dizer com mais certeza que essas baleias têm CPF capixaba”, disse a bióloga e mestranda em Oceanografia Ambiental pela Ufes, Bruna Rezende Gonçalves.

Contar baleias em mar aberto está longe de ser simples. O monitoramento combina diferentes tecnologias e observação em campo:

As baleias-jubarte que aparecem na costa brasileira durante os seis meses de avistamento podem chegar a 16 metros de comprimento e pesar até 40 toneladas.

Nesse período, elas deixam a Antártida, onde permanecem entre dezembro e maio em busca de alimento, e migram cerca de 4 mil quilômetros até o Brasil. O objetivo é encontrar águas mais quentes, favoráveis à reprodução e ao nascimento dos filhotes.

 O que os números mostram

O levantamento é feito na Plataforma Continental Centro-Sul do Espírito Santo, entre Serra a Guarapari. Segundo os pesquisadores, a profundidade nesse local pode chegar a 70-80 metros.

O oceanógrafo e professor da Ufes Agnaldo Martins reforçou que o estudo não mede a população total da espécie, que se distribui por uma área muito maior do Atlântico Sul Ocidental.

“A gente fez uma estimativa local para ter uma ideia de quantas baleias a gente pode esperar encontrar aqui durante a temporada”, afirmou ele, que também é coordenador do Laboratório de Nectologia da universidade federal.

Segundo Agnaldo, é importante a continuidade das medições ao longo dos anos.

“A gente só consegue entender essas tendências porque existe monitoramento ao longo dos anos. Isso ajuda a identificar se a área está sendo mantida como rota de reprodução e uso das baleias”, explicou.

Como os filhotes são identificados

Os pesquisadores não acompanham o nascimento em si, mas conseguem identificar os filhotes recém-nascidos por características físicas e comportamento. A bióloga explicou que eles são menores, mais claros e permanecem muito próximos das mães.

“Eles são pequenos, mas já nascem com 4 toneladas. A gente faz um monitoramento sistemático com drone, hidrofone e observação embarcada. Depois esses dados são analisados em laboratório para estimar a quantidade de baleias”, disse Bruna.

O coordenador da pesquisa, Jonathas Barreto, destacou que o uso de drones aumentou a precisão das análises.

“Com o drone, a gente consegue medir os animais e diferenciar filhotes de juvenis com mais segurança”, afirmou. Segundo Barreto, isso permitiu alcançar o número inédito de filhotes registrados na região.

Riscos e proteção

Os dados também ajudam a identificar riscos, principalmente de colisão com embarcações. Bruna afirmou que muitos casos não são registrados em mar aberto, o que dificulta a dimensão real do problema.

O ambientalista Thiago Ferrari, do Projeto Amigos da Jubarte, explicou que o levantamento serve como base para ações de proteção.

Filhote e baleia-jubarte são flagrados por pesquisadores no Espírito Santo — Foto: Divulgação/Amigos da Jubarte

“Quando a gente entende onde as baleias estão e como elas usam a região, fica possível propor medidas para reduzir os riscos”.

Entre as medidas em discussão estão mudanças em rotas de navegação, redução de velocidade e monitoramento em tempo real.

Por que continuar monitorando

Os pesquisadores destacaram que o acompanhamento precisa ser contínuo para gerar uma série histórica confiável.

Segundo Jonathas Barreto, um único ano não permite identificar tendências. “A gente precisa de vários anos para entender se esse número está aumentando, diminuindo ou se mantendo estável”, afirmou.

Ele explicou que, nos últimos três anos, foi possível aplicar a mesma metodologia ao longo de toda a temporada reprodutiva, o que garante comparações mais consistentes.

“Nos últimos três anos, 2023, 2024 e 2025, a gente conseguiu repetir exatamente o mesmo método durante toda a temporada. E só assim a gente ganha mais convicção sobre os resultados”, disse.

Som, imagem e medição

O monitoramento combina diferentes técnicas. A acústica, usada para identificar a presença das baleias e o impacto do ruído no ambiente marinho, passou a ser complementada por outros métodos. Você pode ouvir o som dessa comunicação entre os animais no vídeo do início desta reportagem.

Pesquisadores da Ufes utilizam na costa capixaba a fotogrametria para medir as baleias-jubarte — Foto: Divulgação/Ufes

Pesquisadores da Ufes utilizam na costa capixaba a fotogrametria para medir as baleias-jubarte — Foto: Divulgação/Ufes

“Hoje, a gente usa muito a acústica para entender o impacto das embarcações e também a comunicação das baleias. Mas o grande avanço foi o uso do drone e da fotogrametria”, explicou.

Com as imagens aéreas, é possível medir os animais e confirmar com mais precisão a presença de filhotes.

“Com o drone e com as técnicas de fotogrametria, a gente consegue medir os animais e ter certeza se são filhotes daquela temporada ou juvenis de anos anteriores”, afirmou.

Para 2025, o resultado foi inédito: quase 100 filhotes na plataforma continental da Grande Vitória. Barreto reforçou que os números se referem a uma área específica entre Serra e Guarapari, e não à população total da espécie.

“A gente está falando de uma região monitorada, não do Espírito Santo inteiro e muito menos da população global da jubarte”, explicou.

Pesaquisadores da Ufes seguem baleias-jubarte até o gelo para entender as migrações

Pesquisa, universidade e formação

O estudo é fruto da parceria entre a Ufes e o Projeto Amigos da Jubarte, por meio do Jubarte.Lab, que reúne pesquisadores e estudantes. Além dos resultados científicos, o trabalho forma novos profissionais.

Mas acompanhar baleias em mar aberto está longe de ser uma tarefa simples. Os pesquisadores passam horas embarcados observando o horizonte, enfrentando ondulações e tentando distinguir baleias de rochas, ondas ou outros elementos da paisagem.

“Avistar baleia requer um olho treinado. A gente tem expectativa de ver elas saltando muito perto, mas o dia a dia do pesquisador é um pouco mais difícil que isso. Às vezes tem que saber diferenciar entre ondulação, baleia e rocha”, contou a bióloga e mestranda em Oceanografia Ambiental pela Ufes, Bruna Rezende Gonçalves.

O coordenador da pesquisa, Jonathas Barreto, destacou que o desafio envolve tanto o trabalho em campo quanto o uso das tecnologias que ajudam a monitorar os animais.

“A gente balança, a gente enjoa e também tem muita tecnologia por trás. Conseguir conciliar esse trabalho em ambiente inóspito com tecnologias como drone e hidrofone é o grande desafio”, afirmou.

Pesquisadores usam diferentes tecnologias e observação em campo para monitorar filhotes e baleias-jubarte no Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Pesquisadores usam diferentes tecnologias e observação em campo para monitorar filhotes e baleias-jubarte no Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Economia azul: quando proteger também gera renda

O monitoramento das baleias não produz apenas conhecimento científico. Os dados também ajudam a organizar atividades econômicas ligadas ao mar, dentro dos princípios da chamada economia azul, que busca conciliar conservação ambiental e desenvolvimento sustentável.

Para o ambientalista Thiago Ferrari, do Projeto Amigos da Jubarte, entender como as baleias utilizam o litoral capixaba permite transformar informação científica em ações concretas.

“Quando a gente entende onde as baleias estão e como elas usam a região, isso deixa de ser só um dado de pesquisa e passa a ser uma base para decisão. É isso que permite pensar em políticas públicas, reduzir riscos de colisão e organizar melhor o uso do mar”, afirmou.

Além da preservação, a presença das jubartes movimenta a economia. Segundo o coordenador do Núcleo de Turismo do Sebrae/ES, Leandro Tononi, a observação de baleias tem se consolidado como uma atividade capaz de atrair visitantes e gerar renda para diversos setores.

“O turismo de observação de baleias é um indutor de viagens. Muitas pessoas escolhem o destino justamente para ter essa experiência. Quando elas chegam ao Espírito Santo, movimentam toda a cadeia turística, como hospedagem, alimentação, transporte e comércio”, explicou.

Tononi destacou ainda que a atividade se profissionalizou nos últimos anos. O que antes era realizado com embarcações adaptadas passou a contar com empresas especializadas, equipes treinadas e passeios regulamentados.

A expansão também chegou a novos municípios. Além de Vitória, os passeios já são oferecidos em cidades como Guarapari e Aracruz, ampliando as oportunidades para pequenos empreendedores ligados ao turismo.

Segundo estimativas do setor, cerca de duas mil pessoas devem participar dos passeios de observação de baleias durante a temporada deste ano.

Para o Sebrae, o crescimento da atividade demonstra como a conservação da espécie pode caminhar junto com o desenvolvimento econômico.

“Hoje, as baleias têm muito mais valor vivas, sendo observadas, do que qualquer modelo antigo de exploração. É um exemplo claro de como a economia azul pode gerar desenvolvimento e, ao mesmo tempo, fortalecer a conservação ambiental”, afirmou Tononi.

Os pesquisadores ressaltam que o próprio avanço do turismo depende da manutenção de um ambiente saudável para as jubartes. Por isso, os dados coletados em campo podem ajudar a orientar medidas como ajustes em rotas de navegação, controle de velocidade de embarcações e definição de áreas mais sensíveis ao longo da costa capixaba.

Enquanto os pesquisadores produzem dados que ajudam a proteger as jubartes e impulsionar uma nova economia ligada ao mar, o encantamento continua sendo parte do trabalho.

A bióloga e pesquisadora Bruna Rezende já participou de mais de 200 embarques científicos. Ainda assim, diz que cada encontro parece o primeiro.

“Quando eu vejo uma jubarte, quando eu vejo um filhote recém-nascido, eu me coloco no meu próprio lugar de insignificância. A natureza é muito maior. E esses animais são grandiosos”.

Enquanto isso, as baleias seguem retornando ao litoral capixaba a cada temporada, agora com dados mais precisos que ajudam a entender e proteger essas gigantes do mar.

Quase 100 baleias-jubarte nasceram no litoral do Espírito Santo em 2025, mostra pesquisa inédita — Foto: Divulgação

Quase 100 baleias-jubarte nasceram no litoral do Espírito Santo em 2025, mostra pesquisa inédita — Foto: Divulgação

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