Espírito Santo inicia projetos de hidrogênio verde e energia limpa. – Foto: Acervo/Next Editorial
O Espírito Santo começou a disputar uma das corridas econômicas mais estratégicas da próxima década: a produção de hidrogênio verde e combustíveis de baixo carbono. Em meio à pressão global por descarbonização, reorganização industrial e busca por energia limpa, o Estado tenta transformar sua estrutura portuária, logística, industrial e energética em vantagem competitiva para atrair investimentos bilionários e ocupar posição relevante na nova geografia internacional da economia de baixo carbono.
A disputa ganhou dimensão global. Projeções da Agência Internacional de Energia indicam que o mercado de hidrogênio de baixo carbono poderá movimentar trilhões de dólares nas próximas décadas, impulsionado pela pressão climática sobre setores industriais de alta emissão e pelas metas ambientais adotadas por países europeus e asiáticos. Nesse cenário, estados brasileiros como Ceará, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e Espírito Santo passaram a disputar espaço para se consolidar como hubs exportadores de combustíveis verdes.
A expectativa é que 2026 seja marcado pelo aprofundamento de projetos ligados ao hidrogênio verde, pela ampliação de iniciativas de biometano e pela aceleração da preparação para a eólica offshore, consolidando o Espírito Santo como um dos principais polos emergentes de energia limpa do país. O movimento ocorre em um ambiente de expansão da nova matriz energética global, no qual governos, indústrias e fundos internacionais intensificam a corrida por fontes capazes de reduzir emissões sem comprometer produtividade industrial, segurança energética e competitividade internacional.
O hidrogênio verde ganhou centralidade justamente por ser apontado como alternativa para setores de difícil descarbonização, como siderurgia, mineração, fertilizantes, transporte marítimo e indústria pesada. Produzido a partir da eletrólise da água utilizando fontes renováveis, como energia solar, eólica e hídrica, o combustível não gera emissão direta de carbono durante o processo produtivo e passou a ocupar posição estratégica nos planos energéticos de diversas economias industrializadas.
As pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) também passaram a integrar esse movimento internacional. Segundo o professor Josimar Ribeiro, do Departamento de Química da Ufes e coordenador do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em Eletroquímica (LPDE), a qualidade da água é um dos fatores decisivos para viabilizar a produção em escala industrial. “A melhor forma de produzir hidrogênio verde é por meio do processo de eletrólise, no qual uma corrente elétrica é aplicada em eletrodos específicos, que separam os átomos de oxigênio e hidrogênio da molécula de água”, afirmou em entrevista publicada pela universidade.
O pesquisador coordena ainda projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e pela Vale voltado ao tratamento de efluentes industriais utilizando eletrofloculação, tecnologia que também gera hidrogênio verde durante o processo e permite produção de energia elétrica limpa a partir de células a combustível. Segundo a Ufes, as aplicações futuras do H2V incluem siderurgia, indústria química, refino de petróleo, transporte e construção civil.
O potencial econômico da nova cadeia energética ajuda a explicar a corrida global. A disputa pelo hidrogênio verde já começou, mas poucos estados brasileiros conseguem reunir simultaneamente porto, indústria, logística e demanda energética em um mesmo território. É justamente essa combinação que coloca o Espírito Santo no radar de investidores e grupos internacionais interessados na nova cadeia energética.
Segundo Nathan Diirr, gerente de Ambiente de Negócios do Observatório da Findes, o Espírito Santo reúne condições diferenciadas para participar dessa nova cadeia global. “O hidrogênio verde é promissor, pois não gera gases de efeito estufa nem na produção nem no uso, mas ainda enfrenta desafios de escala e logística. O estado, porém, reúne condições estratégicas para avançar nesse mercado”, afirma.
A presença de portos de águas profundas, integração logística com rodovias e ferrovias, base industrial consolidada e proximidade com grandes mercados consumidores posicionam o Estado como candidato a hub energético de baixo carbono. A região da Grande Vitória, por exemplo, concentra setores industriais intensivos em energia e emissões, como siderurgia, metalurgia, logística e transformação industrial, considerados prioritários para utilização futura do hidrogênio verde.

























