El Niño pode atingir força histórica e agravar eventos climáticos extremos no mundo

Por

Redação O JORNAL

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Threads

Alerta da Organização Meteorológica Mundial aponta risco de ondas de calor, secas severas e inundações. Relatório da ONU também prevê aquecimento global acima das estimativas anteriores e cobra cortes urgentes nas emissões de gases de efeito estufa.

O planeta poderá enfrentar uma combinação ainda mais preocupante de extremos climáticos nos próximos anos. A possibilidade de um episódio de El Niño de intensidade excepcional, capaz de superar padrões observados nas últimas quatro décadas, acendeu um alerta entre especialistas da Organização Meteorológica Mundial (OMM). O fenômeno pode alterar significativamente a distribuição das chuvas e intensificar ondas de calor, estiagens e inundações em diferentes regiões.

O alerta foi feito nesta quarta-feira (21) por Celeste Saulo, secretária-geral da OMM. Segundo ela, os efeitos do El Niño podem variar de acordo com a região, provocando calor intenso e secas severas em determinadas áreas, enquanto outras poderão enfrentar chuvas excessivas e enchentes.

O cenário reforça a preocupação internacional com os impactos das mudanças climáticas e a capacidade de países e comunidades de enfrentar eventos meteorológicos cada vez mais severos. Embora o El Niño seja um fenômeno natural associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, seus efeitos podem se somar ao aquecimento global, ampliando os riscos relacionados às temperaturas extremas.

Aquecimento global pode superar projeções anteriores

Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta quarta-feira, indica que o mundo continua distante das metas necessárias para limitar o aumento da temperatura média global.

Mesmo no cenário mais otimista considerado pelo documento, o aquecimento poderá alcançar entre 1,7°C e 1,8°C acima dos níveis pré-industriais até meados do século. As projeções também apontam para um aumento de aproximadamente 2,8°C até 2100 caso sejam mantidas as políticas atuais. Se os compromissos climáticos já assumidos pelos países forem integralmente cumpridos, a estimativa cai para 2,6°C.

As duas projeções são superiores às apresentadas no relatório do ano passado. Entre os fatores apontados estão mudanças nas avaliações das emissões históricas e a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, que alteram as perspectivas sobre o esforço internacional de redução dos gases de efeito estufa.

ONU cobra redução acelerada das emissões

O levantamento do Pnuma aponta que as medidas climáticas atualmente previstas pelos governos ainda são insuficientes para conter o aquecimento global nos níveis desejados.

Para alcançar uma trajetória de redução mais compatível com as metas climáticas, as emissões globais de gases de efeito estufa precisariam diminuir 18% em relação aos níveis de 2025 até 2030. A redução deveria chegar a 45% até 2035 e a 69% até 2040.

Os planos nacionais apresentados até agora, entretanto, projetam uma queda de apenas 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035.

A diferença entre as reduções necessárias e aquelas previstas pelos governos evidencia a dimensão do desafio. Apesar do avanço das energias renováveis e da adoção de políticas ambientais em diversos países, o relatório defende medidas mais rápidas e rigorosas para reduzir as emissões.

Meta de 1,5°C exige esforços adicionais

O Acordo de Paris, firmado em 2015, estabeleceu o compromisso internacional de manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com esforços para limitar essa elevação a 1,5°C.

De acordo com o novo relatório, evitar completamente que a temperatura ultrapasse 1,5°C já não é considerado um cenário viável nas avaliações apresentadas pelo Pnuma. Ainda assim, o documento aponta a possibilidade de limitar essa ultrapassagem e fazer com que a temperatura global retorne ao patamar de 1,5°C ou menos até o final do século.

Essa trajetória, denominada no relatório de cenário de ultrapassagem mais baixa possível, oferece aproximadamente 50% de chance de retorno ao limite até 2100. Para isso, porém, seriam necessárias reduções profundas das emissões e a remoção de grandes volumes de dióxido de carbono da atmosfera, uma estratégia cuja viabilidade em larga escala ainda envolve incertezas.

Negociações climáticas terão novo desafio

A discussão sobre o futuro climático do planeta estará no centro da próxima rodada de negociações internacionais, a COP31, prevista para ocorrer na Turquia.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu a continuidade dos esforços para reduzir as emissões e evitar que o aquecimento provoque impactos ainda mais graves, como inundações, incêndios florestais e outros desastres naturais.

A mensagem das Nações Unidas é que a possibilidade de ultrapassar temporariamente a meta de 1,5°C não deve ser interpretada como motivo para abandonar os compromissos climáticos. Quanto mais rapidamente as emissões forem reduzidas, maiores serão as possibilidades de limitar a intensidade e a duração do aquecimento.

O alerta sobre um possível El Niño excepcional e as novas projeções de aquecimento global reforçam a urgência de medidas de prevenção, adaptação e redução das emissões. Os efeitos dos fenômenos climáticos variam de uma região para outra, mas a preparação para ondas de calor, estiagens e chuvas extremas tende a ganhar importância crescente para governos e populações em todo o mundo.

Saneamento é importante, mas não basta

Diferentemente do que afirmou Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, o saneamento básico, embora seja fundamental para a saúde pública e a preservação ambiental, não é, isoladamente, a resposta para enfrentar as mudanças climáticas no Brasil.

O desafio exige um conjunto amplo e integrado de políticas públicas, incluindo a redução das emissões de gases de efeito estufa, o combate ao desmatamento, a preservação das florestas, a transição para fontes de energia limpa, o planejamento urbano, a proteção dos recursos hídricos e o fortalecimento dos sistemas de prevenção e resposta a desastres.

Diante da perspectiva de ondas de calor mais intensas, secas prolongadas e chuvas extremas, o país precisa transformar os alertas científicos em ações concretas de mitigação e adaptação. O aquecimento global não será contido por uma medida isolada e simplória, mas por uma estratégia consistente, com metas, investimentos e responsabilidades compartilhadas entre os governos e a sociedade.

Mais Notícias

No data was found