Novo medicamento aprovado pela Anvisa amplia as opções de tratamento para casos específicos de câncer de mama avançado – Foto: Divulgação
A identificação de uma alteração genética no sangue pode ajudar médicos a antecipar uma mudança no tratamento de determinados casos de câncer de mama avançado. A estratégia ganhou espaço com a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Etcamah (camizestranto), medicamento oral indicado para um grupo específico de pacientes com câncer de mama localmente avançado ou metastático.
O registro contempla tumores positivos para receptor de estrogênio (ER+) e negativos para HER2, quando surge a mutação no gene ESR1 durante o tratamento hormonal e ainda não há sinais de progressão da doença.
A principal novidade está na possibilidade de identificar essa alteração molecular antes que o câncer volte a apresentar crescimento detectável nos exames de imagem. A mutação ESR1 pode estar relacionada ao desenvolvimento de resistência à terapia hormonal e pode ser identificada por meio da análise do DNA tumoral circulante no sangue, em uma estratégia conhecida como biópsia líquida.
Em entrevista ao portal ES Brasil, a ginecologista e obstetra Dra. Ana Bimbato, da Bluzz, explica que essa informação molecular pode contribuir para uma decisão mais antecipada sobre a estratégia terapêutica.
“A identificação de uma alteração molecular como a mutação ESR1 pode mostrar que o tumor está desenvolvendo resistência ao tratamento antes mesmo de uma progressão ser percebida nos exames de imagem. Isso permite que a equipe médica tenha uma informação adicional para avaliar, de forma antecipada e individualizada, a necessidade de mudança da estratégia terapêutica”, explica.
A especialista ressalta que a novidade não significa que o medicamento será indicado para todos os casos de câncer de mama. A aprovação estabelece critérios específicos relacionados às características do tumor, à presença da mutação e ao histórico de tratamento de cada paciente.
Como funciona o novo medicamento
O camizestranto pertence a uma nova geração de medicamentos chamados degradadores seletivos do receptor de estrogênio. Ele atua sobre o receptor de estrogênio das células tumorais, bloqueando sua ação e promovendo sua degradação.
Na prática, a proposta é mudar a terapia quando a mutação ESR1 aparece, mesmo que a paciente ainda não apresente sinais de progressão da doença nos exames de imagem.
Resultados do estudo
A aprovação tem como uma das bases os resultados do estudo internacional SERENA-6, que avaliou pacientes com câncer de mama avançado ER+ e HER2- que desenvolveram a mutação ESR1 durante o tratamento.
Mais de 3,2 mil pacientes foram inicialmente testadas para identificar a alteração genética. Desse grupo, 315 apresentaram o perfil necessário para participar da etapa de comparação entre a troca para camizestranto e a manutenção da terapia anterior.
Os resultados publicados no New England Journal of Medicine mostraram que o tempo mediano sem progressão da doença foi de 16 meses entre as pacientes que passaram a receber camizestranto, contra 9,2 meses entre aquelas que continuaram com o inibidor de aromatase. O estudo também apontou uma redução de 56% no risco de progressão da doença ou morte no grupo que fez a troca de tratamento.
Uma atualização posterior do estudo manteve o benefício observado, com 16,8 meses de tempo mediano sem progressão no grupo tratado com camizestranto, contra 9,2 meses entre as pacientes que permaneceram com o inibidor de aromatase.
Câncer de mama no Brasil
O câncer de mama continua sendo o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, desconsiderados os tumores de pele não melanoma. Para cada ano do triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos no país.
A aprovação do camizestranto amplia as opções terapêuticas para um grupo específico de pacientes e reforça uma estratégia que vem ganhando espaço na oncologia: utilizar informações moleculares do tumor para orientar mudanças no tratamento antes que a progressão seja identificada pelos exames convencionais.
O medicamento ainda passa pela etapa de definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) antes da comercialização no país.










