A história da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo, em Itapemirim, está diretamente ligada à formação histórica e religiosa do Sul do Espírito Santo. O atual templo, inaugurado em 1855, é o terceiro espaço construído para abrigar a devoção à padroeira e se tornou, ao longo de quase dois séculos, um dos principais símbolos do município.
Uma história que começou muito antes da atual igreja
A origem da devoção a Nossa Senhora do Amparo na região remonta ao século XVII. Segundo a Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, em 1625 os missionários jesuítas fundaram uma igreja dedicada à santa na região dos Montes Castelos, atualmente associada à área do Caxixe, próxima à Fazenda do Centro, em Castelo.
Em 12 de novembro de 1710, aquele templo foi elevado à condição de Igreja Matriz da Paróquia dos Montes do Castelo, sob a invocação de Nossa Senhora do Amparo.
A história, porém, tomaria um novo rumo algumas décadas depois. Em 1765, diante da insegurança provocada por conflitos com indígenas e também pela falta de alimentos, parte da população deixou a região e levou consigo para o Sítio Itapemirim elementos importantes da antiga igreja, entre eles a imagem de Nossa Senhora do Amparo, a pia batismal, o sino e outros objetos religiosos.
Ali foi construído o primeiro templo dedicado à santa em Itapemirim. Posteriormente, um segundo templo foi erguido na região central da vila, restando atualmente ruínas dessa construção.
A atual Matriz começa a nascer em 1847

Com o crescimento da população e a deterioração da antiga estrutura religiosa, surgiu a necessidade de construir uma nova igreja.
É nesse contexto que entra uma figura fundamental da história do templo: o frei Paulo Antônio Casanova, missionário capuchinho que atuava como vigário da freguesia de Itapemirim.
Registros históricos apontam que a primeira pedra da atual Igreja Matriz foi lançada em 8 de setembro de 1847. As obras começaram efetivamente em 11 de janeiro de 1848, sob a condução de frei Paulo.
A construção contou com forte participação da própria comunidade. Documentos históricos registram que a igreja foi erguida com recursos provenientes dos rendimentos da freguesia, donativos dos paroquianos e trabalho da população. O sino e a pia batismal utilizados no novo templo eram provenientes da antiga igreja de Monte Castello, que havia sido destruída.
Um detalhe particularmente interessante está registrado na própria construção: acima da porta principal foi colocada uma inscrição em latim mencionando frei Paulo e indicando o ano de 1853, enquanto os registros históricos apontam a conclusão e bênção do templo em 1855.
15 de setembro de 1855: a inauguração
Depois de aproximadamente oito anos de construção, a atual Matriz de Nossa Senhora do Amparo foi inaugurada e benzida em 15 de setembro de 1855 por frei Paulo Antônio Casanova.
A Diocese de Cachoeiro de Itapemirim confirma que o atual templo é o terceiro edifício religioso da Paróquia de Nossa Senhora do Amparo.
Há registros históricos da época que descrevem as dimensões da igreja e sua configuração original: uma nave, seis tribunas, sete janelas e dois púlpitos, com aproximadamente 24,64 metros de comprimento e 13,20 metros de largura.
A localização também não foi por acaso. Erguida sobre uma espécie de pequeno altiplano, a igreja passou a dominar a paisagem da então Vila de Itapemirim. Sua fachada foi voltada para o Rio Itapemirim, onde ficava o porto, principal porta de entrada da vila naquele período.
Um templo que testemunhou a história
Poucos anos depois de sua inauguração, a Matriz já ocupava posição central na vida social e política da vila.
Um dos episódios históricos mais marcantes ocorreu em fevereiro de 1860, quando o imperador Dom Pedro II visitou a região. A Igreja de Nossa Senhora do Amparo foi utilizada para receber o monarca, que foi saudado no templo pelo presidente da Câmara Municipal, Francisco Gomes Bittencourt.
Isso ajuda a dimensionar a importância que a igreja adquiriu: ela não era apenas um espaço destinado às celebrações religiosas, mas também um dos principais pontos de referência da vida pública de Itapemirim.
Arquitetura e patrimônio
A atual Matriz apresenta elementos que revelam um período de transição arquitetônica. Estudos sobre o edifício identificam características relacionadas ao rococó tardio e ao neoclassicismo, além de elementos que remetem às influências portuguesas e romanas presentes na arquitetura religiosa brasileira do período.
Documentos oficiais do município registram que o imóvel foi tombado definitivamente como patrimônio histórico e artístico estadual, por meio da Resolução CEC nº 001/2011, publicada em janeiro de 2011.
A igreja também preserva imagens religiosas antigas, algumas com mais de 300 anos, testemunhando a trajetória da devoção a Nossa Senhora do Amparo desde os primeiros templos da região.
Quase dois séculos depois

Hoje, a Matriz de Nossa Senhora do Amparo continua sendo um dos principais cartões-postais de Itapemirim e um patrimônio que ultrapassa a dimensão religiosa. Sua história se mistura à própria formação da cidade.
A trajetória iniciada ainda no século XVII, a transferência da devoção para Itapemirim em 1765, a construção conduzida por frei Paulo a partir de 1847 e a inauguração do atual templo em 1855 formam uma linha histórica de mais de três séculos de devoção e quase dois séculos da atual edificação.
Por isso, quando Itapemirim celebra Nossa Senhora do Amparo em 8 de setembro, a festa não representa apenas uma manifestação de fé. É também uma celebração da memória, da cultura e da identidade de um povo que encontrou na igreja um dos mais importantes símbolos de sua história.
E agora, diante da perspectiva de restauração da estrutura secular, a velha Matriz se prepara para ganhar novas páginas em uma história que começou muito antes de o atual templo existir.


























