Testes realizados em países como Portugal, Reino Unido e Islândia apontam manutenção da produção e melhora no bem-estar dos trabalhadores; especialistas ressaltam que resultados dependem da organização do trabalho e das características de cada setor
A discussão sobre o fim da escala 6×1 e a adoção de jornadas com dois ou três dias de descanso por semana ganhou um argumento importante no cenário internacional: trabalhar menos horas não significa, necessariamente, produzir menos. Experiências realizadas em países como Portugal, Reino Unido e Islândia indicam que a redução da jornada pode preservar a produtividade e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, desde que acompanhada de mudanças na organização das atividades.
Os resultados, porém, não autorizam conclusões simplistas. A escala 5×2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, já é comum em diversos países desenvolvidos. A escala 4×3, com quatro dias de trabalho e três de descanso, ainda está mais associada a experiências específicas, acordos empresariais e projetos-piloto. A questão central é saber em quais condições a redução da jornada pode ser implementada sem comprometer a produção, os serviços e a sustentabilidade financeira das empresas.
Portugal: 95% das empresas avaliaram experiência positivamente
Um dos exemplos mais relevantes vem de Portugal. Em 2023, um projeto-piloto acompanhou 41 empresas e mais de mil trabalhadores durante aproximadamente seis meses. As organizações participantes experimentaram diferentes formatos de semana de quatro dias, com redução do tempo de trabalho sem diminuição salarial.
De acordo com os resultados divulgados pelo governo português, 95% das empresas avaliaram positivamente a experiência. A redução média da jornada semanal foi de 39,3 para 34 horas, uma diminuição de aproximadamente 13,7%.
Os efeitos também apareceram na vida pessoal dos trabalhadores. O percentual daqueles que consideravam difícil ou muito difícil conciliar trabalho e vida familiar caiu de 46% para 8%. Além disso, houve redução de 19% nos sintomas de exaustão relacionados ao trabalho.
O estudo não significa que todas as empresas tenham aumentado sua produção ou seus lucros. A conclusão mais relevante é que a redução da jornada foi considerada viável pela ampla maioria das participantes, embora os resultados variassem conforme a atividade e a forma de implementação.
Reino Unido: empresas mantiveram a semana de quatro dias
No Reino Unido, um dos maiores projetos-piloto sobre o tema reuniu 61 empresas e aproximadamente 2.900 trabalhadores entre junho e dezembro de 2022. Os participantes tiveram redução do tempo de trabalho, sem corte salarial, com liberdade para adaptar o modelo às necessidades de cada organização.
Ao final do experimento, 56 das 61 empresas, o equivalente a 92%, decidiram continuar com a semana de quatro dias. Dezoito confirmaram a mudança como permanente.
Entre os resultados, os pesquisadores identificaram uma redução de 65% nos dias de afastamento por doença e de 57% no número de trabalhadores que deixaram as empresas, em comparação com o período equivalente do ano anterior. Nas 23 organizações que forneceram dados de receita, o faturamento apresentou aumento médio de 1,4% durante o teste.
Os resultados foram divulgados por pesquisadores ligados às universidades de Cambridge e Boston College, em parceria com outras instituições. Embora promissores, eles se referem às empresas participantes e não representam uma garantia de que o mesmo desempenho se repetirá em toda a economia britânica.
Islândia: produtividade preservada em jornadas menores
A Islândia também se tornou uma referência nesse debate. Entre 2015 e 2019, o país realizou testes com aproximadamente 2.500 trabalhadores, que passaram a cumprir jornadas semanais de 35 a 36 horas, sem redução salarial.
A avaliação conjunta das experiências apontou que a produtividade e a prestação de serviços permaneceram estáveis ou melhoraram na maioria dos locais de trabalho analisados. Os trabalhadores também relataram benefícios relacionados ao estresse, ao esgotamento profissional e ao equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
Após os testes, a experiência contribuiu para a ampliação de acordos de redução da jornada. Segundo o relatório publicado em 2021 pelo instituto de pesquisa Autonomy e pela organização islandesa Alda, 86% da força de trabalho do país passou a ter jornadas menores ou direito de negociar sua redução.
Países ricos produzem mais por hora trabalhada
A discussão também envolve uma característica das economias mais desenvolvidas: a capacidade de gerar mais riqueza em cada hora de trabalho.
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que, em 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) por hora trabalhada chegou a US$ 99,70 na Noruega e US$ 92,20 na Dinamarca, considerando valores ajustados pela paridade de poder de compra e a preços constantes de 2020. Nos Estados Unidos, o indicador foi de US$ 84,10.
A comparação demonstra que algumas economias conseguem gerar elevado valor econômico por hora trabalhada. Isso não prova que a jornada reduzida seja, isoladamente, responsável pelo resultado. Tecnologia, qualificação profissional, infraestrutura, gestão e composição dos setores econômicos também exercem influência decisiva.
O indicador mede a riqueza produzida por hora, e não o esforço individual de cada trabalhador. Portanto, não é correto concluir que um empregado de um país mais produtivo necessariamente trabalhe mais ou se esforce mais do que outro.
Japão teve resultado expressivo em teste empresarial
Em 2019, a Microsoft Japão realizou um experimento de um mês no qual seus funcionários receberam cinco sextas-feiras de folga consecutivas, sem redução salarial.
A empresa divulgou aumento de 40% em um indicador interno de produtividade, associado a mudanças na organização das reuniões e das atividades. O caso ganhou repercussão internacional, mas precisa ser interpretado com cautela: foi uma experiência temporária, em uma única empresa, e não uma medição da produtividade de toda a economia japonesa.
O exemplo reforça a possibilidade de obter ganhos de eficiência quando a redução do tempo de trabalho é acompanhada de mudanças nos processos. Não comprova, contudo, que a mesma proporção de aumento possa ser reproduzida em outras empresas ou setores.
O desafio brasileiro vai além da mudança de escala
No Brasil, a discussão sobre o fim da escala 6×1 envolve interesses econômicos e sociais. De um lado, estão os trabalhadores que reivindicam mais tempo para descanso, convivência familiar, lazer e recuperação física e mental. De outro, empresas e setores produtivos precisam avaliar como manter o atendimento, a produção e a competitividade com uma jornada menor.
A experiência internacional indica que os resultados dependem da capacidade de reorganizar o trabalho. Reduzir reuniões improdutivas, melhorar processos, investir em tecnologia e planejar melhor as equipes são algumas das alternativas utilizadas para compensar a diminuição das horas trabalhadas.
Entretanto, a realidade brasileira apresenta diferenças importantes. Atividades que dependem de atendimento contínuo, como saúde, comércio, transporte, segurança e hotelaria, podem exigir contratação de pessoal adicional, escalas alternadas ou mudanças operacionais para manter o funcionamento durante os dias de descanso.
Também é necessário distinguir a adoção da escala 5×2 da redução efetiva da jornada semanal. Uma pessoa pode trabalhar cinco dias por semana e continuar cumprindo 44 horas, enquanto um modelo de quatro dias pode representar jornadas de 32, 34 ou 36 horas. Os impactos econômicos dependem dessas diferenças.
Menos horas não significam, automaticamente, mais produção
As experiências de Portugal, Reino Unido e Islândia apontam que é possível reduzir o tempo de trabalho sem provocar necessariamente uma queda na produtividade. Em determinadas condições, os ganhos de organização, a redução dos afastamentos e a melhora do bem-estar podem ajudar a preservar os resultados.
Isso não significa, entretanto, que todos os países, empresas ou atividades possam adotar imediatamente a escala 4×3 com os mesmos efeitos. Os projetos analisados envolveram grupos específicos, e seus resultados não substituem avaliações sobre custos, salários, contratação, produção e qualidade dos serviços.
O debate brasileiro exige, portanto, uma análise que considere tanto os direitos dos trabalhadores quanto as condições de funcionamento da economia. A experiência internacional oferece evidências favoráveis à busca por jornadas mais equilibradas, mas também demonstra que a mudança precisa ser planejada de acordo com a realidade de cada atividade.
No centro dessa discussão está uma pergunta que vai além da quantidade de dias trabalhados: o Brasil consegue produzir mais valor em menos horas, melhorando a qualidade de vida dos trabalhadores sem comprometer a capacidade de suas empresas e serviços? Os exemplos internacionais indicam que isso é possível em determinadas condições. O desafio é identificar como alcançar esse resultado na realidade brasileira.
Fontes: Governo de Portugal; relatório do projeto-piloto britânico sobre a semana de quatro dias; relatório sobre a redução da jornada na Islândia; Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); e divulgação dos resultados do experimento da Microsoft Japão.









