Construída a 625 metros do chão e montada em apenas 73 dias, megastrutura na província de Guizhou une engenharia recorde, atrações turísticas e a narrativa oficial de desenvolvimento do país
Por Redação O JORNAL
A província de Guizhou, no sul da China, passou a abrigar a ponte mais alta do mundo. Suspensa a impressionantes 625 metros acima do fundo de um cânion — altura equivalente a um edifício de cerca de 175 andares —, a megastrutura pênsil não apenas desafia a gravidade, mas também se consolidou como o novo cartão-postal do avanço tecnológico e da infraestrutura chinesa.
Do tipo pênsil, a obra é sustentada por dois imponentes pilares nas extremidades do desfiladeiro, interligados por cabos principais que percorrem toda a extensão, além de cabos verticais que garantem a sustentação da pista de rolamento por onde trafegam os veículos.
Turismo nas alturas e recorde de montagem

O que explica a diferença de custos entre grandes obras na China e nos Estados Unidos — Foto: Reprodução/TV Globo
Além de sua função viária, a ponte foi projetada como um complexo turístico de grande porte. Os visitantes podem subir até o topo da estrutura por meio de um elevador panorâmico, caminhar por passarelas de madeira sobre o desfiladeiro e testar os nervos em um trecho com piso totalmente transparente, que oferece uma vista direta para o abismo centenas de metros abaixo. O entorno ainda conta com hotel, restaurante, mirantes e cobertura total de internet 5G.
O método e a velocidade de construção também chamam a atenção. Após três anos de planejamento detalhado, a montagem da estrutura levou apenas 73 dias. A eficiência orçamentária se destaca na comparação internacional: o custo total foi 13 vezes menor do que o de uma ponte de grande porte construída no estado de Nova York, nos Estados Unidos, que levou cinco anos para ser concluída a um custo de US$ 4 bilhões.
A ponte em números:
- Altura: 625 metros do chão (equivalente a 175 andares).
- Tempo de montagem: 73 dias (após 3 anos de planejamento).
- Estrutura: Ponte pênsil com cabos de alta resistência e trecho com piso de vidro.
- Atrações: Elevador panorâmico, mirante, hotel, restaurante e rede 5G.
O contraste socioeconômico de Guizhou
Apesar de abrigar 50 das 100 pontes mais altas do planeta, a província de Guizhou carrega o título de região mais pobre da China. O cenário local reflete desafios severos, como alto endividamento público, atrasos no pagamento de servidores e cortes recorrentes de verbas nas áreas fundamentais de saúde e educação.
Diante desse contexto, o governo aposta em megainvestimentos de engenharia como motor de revitalização rural. A estratégia busca tirar vilarejos do isolamento geográfico, atrair turistas e gerar renda para conter a pobreza extrema na região.
Vitrine do desenvolvimento e controle da narrativa
Mais do que uma ligação rodoviária, a obra é tratada como um símbolo da capacidade chinesa de levar tecnologia e infraestrutura de ponta aos cantos mais remotos do país. Com a chegada da internet de alta velocidade e de novas vias de acesso, comunidades montanhosas antes isoladas foram finalmente integradas à malha nacional.
Entretanto, a exibição desse avanço ocorre sob forte controle institucional. Uma das excursões organizadas para apresentar o local a visitantes envolveu um ano de negociações prévias entre a empresa fornecedora da tecnologia 5G, a operadora de telefonia e o governo local para definir rigorosamente o itinerário e os pontos liberados para acesso. As visitas contaram com o acompanhamento de tradutores autorizados e entrevistas com moradores previamente selecionados.
Dessa forma, a estrutura suspendeda sobre o cânion de Guizhou firma-se tanto como uma proeza da engenharia moderna quanto como peça central na narrativa que a China busca projetar para o mundo: a de uma nação capaz de superar barreiras geográficas em tempo recorde para promover a modernização de seu território.
**Com informações do programa Fantástico












