De um primeiro embarque em Ponta Ubu, em 1977, a um dos maiores ciclos de investimentos de sua história: quatro décadas e nove anos de mineração, empregos, arrecadação, desenvolvimento e também profundas transformações após a tragédia
ANCHIETA — Há datas que ultrapassam o calendário e SAMARCO, 49 ANOS: A EMPRESA QUE MUDOU O MAPA ECONÔMICO DO SUL CAPIXABA4 de agosto de 1977 é uma delas para o Sul do Espírito Santo. Foi naquela data que a Samarco realizou o primeiro embarque de minério de ferro pelo Terminal Marítimo de Ponta Ubu, em Anchieta, dando início a uma trajetória que, ao longo de 49 anos, ajudaria a redesenhar a economia, a infraestrutura e o perfil industrial do litoral sul capixaba.
Agora, às vésperas de completar meio século, a Samarco chega aos 49 anos diante de um novo capítulo. A empresa inicia a contagem regressiva para seu cinquentenário, em 2027, enquanto se prepara para recuperar integralmente sua capacidade produtiva e executar o maior ciclo de investimentos de sua história.
São R$ 13,8 bilhões previstos em investimentos, com a meta de alcançar 100% da capacidade instalada a partir de 2028. Mais do que números empresariais, o movimento recoloca a mineração no centro das discussões sobre desenvolvimento econômico, geração de empregos, arrecadação e futuro do Sul capixaba.
Ponta Ubu: onde começou uma nova era
A história da Samarco no Espírito Santo começou com a união entre a brasileira Samitri e a norte-americana Marcona Mining Company. A implantação do complexo de mineração criou uma ligação estratégica entre Minas Gerais e o litoral de Anchieta e colocou Ponta Ubu no mapa da grande mineração brasileira.
Um dos principais símbolos desse pioneirismo foi a construção do primeiro grande mineroduto do país, com aproximadamente 400 quilômetros de extensão, conectando Minas Gerais ao Espírito Santo.
A tecnologia permitiu transportar o minério até o litoral e transformou Anchieta em um importante ponto da cadeia mineral brasileira.
Vieram depois as plantas de pelotização, a expansão da produção, o crescimento da estrutura portuária e uma cadeia de fornecedores e serviços que passou a movimentar a economia regional.
Durante décadas, a presença da Samarco ajudou a consolidar a região como um dos principais polos industriais do Espírito Santo.
Uma empresa que ultrapassou os muros da fábrica
A influência da Samarco nunca ficou restrita ao interior de suas unidades industriais.
Sua operação movimentou empresas fornecedoras, transportadoras, prestadores de serviços, comércio e uma extensa cadeia econômica direta e indireta.
No Sul capixaba, a presença da companhia passou a fazer parte da própria dinâmica econômica dos municípios, especialmente Anchieta e localidades do entorno.
Por isso, cada mudança na produção da empresa repercute muito além dos números de produção e exportação. Quando a Samarco cresce, a cadeia econômica regional sente os efeitos. Quando reduz suas atividades, o impacto também ultrapassa seus portões.
É essa dimensão que ajuda a explicar por que a história da empresa se confunde, em boa medida, com a própria história econômica recente do Sul do Espírito Santo.
2015: o ano que dividiu a história em antes e depois
Mas a trajetória de 49 anos também carrega uma marca impossível de ignorar.
Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), provocou uma ruptura na história da Samarco e desencadeou uma série de consequências ambientais, sociais, econômicas e jurídicas que ultrapassaram as fronteiras de Minas Gerais e chegaram ao Espírito Santo.
A tragédia modificou radicalmente os rumos da companhia.
A Samarco precisou interromper suas operações, enfrentar um longo processo de reconstrução e rever profundamente seus modelos de produção e disposição de rejeitos.
A retomada veio anos depois, acompanhada de uma nova estratégia operacional e de mudanças na gestão de segurança.
A empresa passou a operar com um sistema de disposição de rejeitos que não utiliza barragens para essa finalidade e afirma ter colocado a segurança como valor central de sua nova fase.
Reparação ainda no centro do debate
Aomesmo tempo em que tenta reconstruir sua trajetória empresarial, a Samarco permanece vinculada ao processo de reparação decorrente de Fundão.
O Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo Supremo Tribunal Federal, prevê R$ 170 bilhões em ações de reparação e compensação.
O valor dimensiona a magnitude do processo e inaugura uma nova etapa de compromissos relacionados aos impactos provocados pelo desastre.
Assim, o aniversário de 49 anos chega em um momento peculiar: a empresa olha simultaneamente para o passado, para os compromissos ainda em andamento e para um futuro de expansão.
A volta do gigante
Atualmente, a Samarco opera com aproximadamente 60% de sua capacidade produtiva. Em 2025, comercializou 15,9 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério de ferro.
A meta agora é ambiciosa: chegar a 100% da capacidade instalada a partir de 2028.
Para isso, os R$ 13,8 bilhões previstos em investimentos representam muito mais do que uma estratégia empresarial. Para o Espírito Santo, significam a perspectiva de novos contratos, movimentação da cadeia de fornecedores, empregos e maior circulação de recursos em uma região historicamente dependente da força de seus grandes empreendimentos industriais.
É também uma aposta no futuro de Ponta Ubu como um dos principais ativos industriais e logísticos do Estado.
A dimensão política de uma indústria estratégica
Ao longo dessas quase cinco décadas, a Samarco também ocupou espaço relevante nas discussões políticas sobre desenvolvimento regional.
A presença de um empreendimento de grande porte em Anchieta ajudou a colocar o Sul capixaba no radar de investimentos industriais e de infraestrutura.
A relação entre grandes empresas, governos municipais e estadual, comunidades e sociedade civil tornou-se parte permanente da agenda política regional.
Hoje, com a perspectiva de novos investimentos bilionários, essa discussão ganha novamente força.
A retomada integral da Samarco significa discutir não apenas produção e exportação, mas também qual será o papel do Sul do Espírito Santo na próxima década de crescimento industrial do Estado.
Rumo aos 50 anos
A celebração dos 49 anos acontece durante a Exposibram 2026, em Belo Horizonte, entre 24 e 27 de agosto. No evento, a Samarco apresenta sua trajetória de transformação e os planos para os próximos anos.
A programação aborda temas como inteligência artificial, economia circular, inovação, descarbonização e desenvolvimento dos territórios e comunidades.
O movimento simboliza a tentativa de projetar uma imagem de uma empresa diferente daquela que existia antes de 2015.
“Estamos construindo uma nova Samarco, mais segura, responsável e preparada para o futuro”, afirma o presidente Rodrigo Vilela.
O executivo também destaca o desafio de conciliar crescimento, reparação e desenvolvimento dos territórios onde a empresa está presente.
49 anos que ajudam a contar a história do Sul
Aos 49 anos, a Samarco carrega uma história que não pode ser contada apenas pelos seus números de produção.
Ela começa em Ponta Ubu, passa pelo pioneirismo tecnológico, pela transformação de Anchieta em um importante polo industrial, pela geração de riqueza e pela influência econômica regional.
Passa também por 2015, pela interrupção das operações, pela tragédia de Fundão, pelos processos de reparação e pela reconstrução de uma empresa que busca recuperar seu espaço na mineração brasileira.
Agora, às portas dos 50 anos, a companhia inicia uma nova contagem regressiva.
E, para o Sul capixaba, a pergunta vai além de quanto a Samarco produzirá nos próximos anos.
A questão é quanto a retomada de um dos maiores empreendimentos industriais da região poderá representar para o futuro econômico do Sul do Espírito Santo.
Depois de 49 anos, Ponta Ubu continua sendo o ponto de partida de uma história que ainda está longe de terminar.






















