Alunos são orientados sobre como reagir a situações de ameaças em deslocamento de autoridades / Foto: Luana Barrere
O que há em comum entre os assassinatos de Abraham Lincoln, em 1865; do arquiduque Francisco Ferdinando, que deflagrou a Primeira Guerra Mundial, em 1914; do então governador da Paraíba, João Pessoa, em 1930; do pacifista Mahatma Gandhi, em 1948; e do presidente norte-americano John Kennedy, em 1963?
“Em comum entre eles, e até mesmo no atentado a faca ao então candidato (à presidência da República) Bolsonaro, em 2018, podemos apontar as falhas na segurança. Nos casos mais antigos não havia ainda a doutrina da segurança de personalidades importantes como hoje, mas no caso de Bolsonaro, por exemplo, ele e seus principais assessores eram militares e não cuidaram dos detalhes”, disse o capitão José Soares Rezende, instrutor do Curso de Segurança de Dignitários, promovido pela Assembleia Legislativa (Ales).
Iniciado na segunda-feira (23), o curso será concluído nesta sexta (27) com solenidade de formatura na Ales. Trinta e cinco alunos participam da capacitação, realizada a pedido do Sindicato Estadual dos Servidores das Guardas Municipais e dos Agentes Municipais de Trânsito (Sigmates).
Prática
Nesta quinta-feira (26), os participantes puderam exercitar, na prática, o que aprenderam nas aulas teóricas sobre formações e deslocamentos de autoridades e pessoas importantes (VIPs).
No pátio da Guarda Municipal de Vila Velha, os alunos treinaram embarque e desembarque de VIPs bem como a reação a situações de ameaças. Para que, em situações reais, não ocorram falhas que possam colocar em risco a segurança do guarnecido, os instrutores corrigiram cada detalhe.
“A segurança tem uma tríade, que é equipe, liderança e planejamento. A condução de personalidades adota três formações: cunha, losango e quadrado. Cada um precisa saber sua missão”, disse o capitão Rezende.
A doutrina define que todo deslocamento de personalidades com escolta precisa ser planejado, com o envio de uma equipe precursora, para estudar o ambiente e as vias de acesso, e as equipes do evento em três círculos: externo, intermediário e íntimo.
“No externo, geralmente estão policiais fardados, com presença ostensiva. No círculo intermediário estão os agentes velados, enquanto o círculo íntimo é aquele que chega junto com a autoridade e age para garantir a segurança, mas que precisa estar preparado para permitir, no caso de uma autoridade pública por exemplo, o acesso seguro às pessoas”, acentuou Rezende.
Após exaustivos exercícios, na parte da tarde o grupo saiu em três equipes – Alpha, Bravo e Charlie – para endereços diferentes a fim de simular situações reais em ambiente público, como a casa de uma suposta autoridade em Vila Velha, deslocamento em visita ao Convento da Penha, condução para consulta médica e para café em uma padaria, agenda institucional em um gabinete parlamentar da Assembleia e para solenidade.
O coordenador do curso, subtenente Renato Dias, lembrou que uma base relevante da doutrina da segurança de VIPs é a discrição. “O curso visa a construir os fundamentos desse trabalho de forma adequada para que, em situações reais, esses agentes possam saber como agir”, disse Dias.
Apenas uma mulher participa do curso, Rosimeri Terra, que integra a Guarda Municipal de Vitória desde 2003 e nunca teve treinamento sequer similar. Ela considerou relevante estar habilitada a fazer a segurança de personalidades e torce para que outras mulheres participem das próximas turmas.
“A mulher ganha cada vez mais força. Os convites foram feitos para todas as guardas, sem acepção de pessoas. É importante que as mulheres também participem, até porque muitas personalidades são mulheres e, nestes casos, a escolta ter pessoas do mesmo gênero é relevante pelas peculiaridades. Eu tenho certeza de que as mulheres se destacam até mesmo mais do que os homens nessa atividade. O convite está reforçado para que elas venham participar dos próximos cursos”, disse o subtenente Dias.
Interiorização do curso
Até quem não tem, ainda, uma Guarda Municipal criada mandou representantes para o curso. É o caso de Bom Jesus do Norte, de onde vieram o próprio secretário municipal de Segurança, William Miranda, e dois policiais militares. O município ainda está em processo de criação de sua Guarda Civil Municipal.
“É importante essa troca de conhecimento, a integração com as outras guardas. A gente volta com mais conhecimento e com uma visão mais aprimorada de segurança pública”, disse Miranda.
“Em municípios menores, o sistema de segurança é menos ostensivo, mas igualmente necessário. Nos maiores, o deslocamento do prefeito deve obedecer a determinados ritos definidos pela doutrina da segurança pessoal para evitar surpresas”, considerou o capitão José Soares Rezende.
O treinamento de agentes públicos para a segurança de dignitários foi aplicado pela primeira vez pela Diretoria de Polícia Legislativa da Ales, liderada pelo major Ubirajara Resende, para a Polícia Legislativa da Assembleia, a partir de demanda da Presidência da Casa. Posteriormente, o subtenente Dias levou o curso para Cachoeiro de Itapemirim, onde foi subsecretário de Segurança.
Por solicitação do Sindicato das Guardas, agora o curso veio para Vitória e será estendido também para as regiões Norte e Noroeste do Estado.
“Temos visto o crescimento das Guardas Municipais no Estado e muitos desses agentes estão trabalhando à disposição dos prefeitos. Então, visando à melhor preparação desses agentes é que a Assembleia Legislativa sentiu a necessidade de montar o curso para dar prosseguimento a esse trabalho técnico para que os agentes prestem melhor serviço ainda”, explicou o subtenente Dias.
O coordenador do curso ainda teceu elogios à turma. “É muito fácil trabalhar com pessoas honestas e dedicadas. Os alunos são aplicados e já conhecem parte da rotina das autoridades”, finalizou Dias.

