Os novos medicamentos não são indicados para quem quer perder poucos quilos — Foto: Reprodução/Freepik
Nos últimos anos, os novos remédios para obesidade, conhecidos como canetas emagrecedoras, caíram no debate público. Palavras que até pouco tempo causavam estranheza — como Ozempic, Mounjaro, Wegovy, semaglutida e tirzepatida — passaram a fazer parte do vocabulário das pessoas.
Os medicamentos são vistos por muitos como um atalho para a perda de peso. Para a medicina, no entanto, as canetas fazem parte do tratamento de uma doença crônica, a obesidade, e exigem avaliação cuidadosa, acompanhamento contínuo e mudanças de estilo de vida para que os benefícios sejam reais e sustentáveis. Antes de iniciar o uso, há perguntas essenciais que precisam ser feitas no consultório.
Eu tenho indicação de usar a caneta?
De acordo com a bula, as canetas são indicadas para pessoas com IMC a partir de 30 (obesidade) ou acima de 27 quando há comorbidades associadas ao peso, como diabetes tipo 2, hipertensão ou gordura no fígado. Lembrando que o IMC é calculado a partir da divisão do peso pela altura ao quadrado.
Na prática clínica, porém, a avaliação vai além do número da balança. Histórico de ganho de peso, predisposição genética, uso de medicamentos que aumentam o apetite, presença de compulsão alimentar e composição corporal também entram na análise.
“Talvez uma pessoa com IMC 26 mas com glicemia de jejum alterada, gordura no fígado e excesso de gordura central possa ter indicação de usar a medicação”, diz a endocrinologista Karen de Marca, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
O que não é indicação: uso para perder três ou quatro quilos, para despachar gordura localizada ou para controlar o peso antes de uma viagem, por exemplo.
Quais benefícios posso esperar desses remédios?
O principal benefício é a perda de peso, sobretudo por meio de gordura corporal, embora também possa haver perda de massa magra se não houver atividade física adequada. “Além disso, os estudos mostram melhora de parâmetros metabólicos como glicemia, colesterol, pressão arterial e redução da gordura no fígado”, aponta de Marca.
Há ainda benefícios indiretos: melhora da disposição para atividade física, da autoestima e, no caso da tirzepatida, redução da gravidade da apneia do sono. A longo prazo, a perda de peso sustentada está associada à diminuição do risco de infarto, AVC, alguns tipos de câncer, artrose e doença renal crônica.
“Esses ganhos estão diretamente ligados à normalização do peso e são mais eficazes quando o uso da medicação vem acompanhado de mudanças sustentáveis no estilo de vida, como alimentação equilibrada e atividade física”, afirma o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Quais efeitos colaterais são comuns no tratamento e quais são sinais de alerta?
Os mais frequentes são gastrointestinais, especialmente no início do tratamento. Náusea, refluxo, distensão abdominal, constipação, diarreia e, em alguns casos, vômitos podem ocorrer. Dor de cabeça também se manifesta, muitas vezes associada à desidratação.
Esses sintomas costumam diminuir com o tempo e podem ser amenizados com ajustes na alimentação, hidratação adequada e progressão gradual da dose.
Entre os sinais de alerta que não são considerados normais e exigem avaliação médica estão: vômitos persistentes ou incontroláveis, dor abdominal contínua, sinais de desidratação (boca seca, redução do volume urinário, tontura), icterícia, dor no peito e alterações de humor importantes.
Por quanto tempo eu vou usar?
“Essa é uma pergunta que todos os pacientes fazem”, atesta de Marca. Não existe um prazo fixo. As canetas podem ser usadas de forma contínua, enquanto estiverem trazendo benefícios clínicos. Em geral, o tratamento tem metas claras, como perder entre 10% e 20% do peso corporal e melhorar parâmetros metabólicos.
Ao atingir esses objetivos, o médico avalia se o paciente conseguiu sustentar mudanças no estilo de vida. Em alguns casos, é possível tentar o desmame. Em outros, a interrupção leva a um reganho de peso prejudicial, o que pode indicar a necessidade de manter o uso.
É seguro usar para a vida toda? O que a ciência já sabe sobre isso?
Os estudos disponíveis acompanham pacientes por até cinco anos e, até o momento, não apontaram sinais que contraindiquem o uso prolongado. “Como a obesidade é uma doença crônica, há pacientes que podem, sim, serem candidatos ao uso prolongado, inclusive por toda a vida”, afirma Marcelino.
Ainda assim, a decisão deve ser sempre individualizada, levando em conta riscos, benefícios, resposta ao tratamento e custo. Em alguns casos, estratégias como uso intervalado ou redução de dose podem ser consideradas, sempre com acompanhamento médico.
O que acontece se eu parar de usar a caneta?
Ao interromper a medicação, os mecanismos que ajudavam na perda de peso — redução do apetite, aumento da saciedade e atraso do esvaziamento gástrico — deixam de atuar. Isso pode levar ao aumento da fome e ao risco de reganho de peso, algo comum a qualquer estratégia de emagrecimento.
Se a pessoa conseguir manter hábitos saudáveis, esse reganho tende a ser menor. Caso contrário, pode ser necessário reavaliar a estratégia terapêutica, inclusive a possibilidade de retomar a medicação.
Como saber qual é o medicamento ideal pra mim?
Essa decisão depende de uma boa anamnese, na qual o médico avalia histórico clínico, resposta a tratamentos anteriores e presença de condições como refluxo, constipação, tolerância gastrointestinal e intensidade do chamado food noise.
Embora a tirzepatida, em média, leve a uma perda de peso maior do que a semaglutida, isso não significa que seja a melhor opção para todos. Há pacientes que respondem melhor a uma do que a outra.
É preciso mudar a alimentação e fazer atividade física ou o remédio funciona sozinho?
As canetas até funcionam sozinhas. “Mas é lógico que para ter um melhor resultado com a medicação e conseguir sustentar o desmame, a pessoa deveria mudar hábitos também”, aponta de Marca.
Marcelino complementa: “Todos os grandes estudos foram realizados com acompanhamento nutricional e prática regular de atividade física. Sem essas mudanças comportamentais, a perda de peso tende a ser mais difícil e menos sustentável”.
Além disso, uma dieta inadequada aumenta a chance de efeitos colaterais, como refluxo, gases e sensação de estufamento, enquanto o sedentarismo favorece a perda de massa muscular. Os fármacos devem ser vistos como parte de um tratamento mais amplo.
É verdade que esses medicamentos interferem na eficácia do anticoncepcional?
Sim. Os novos tratamentos para obesidade podem interferir na absorção dos anticoncepcionais orais, especialmente no início do tratamento ou durante o aumento de dose, quando são mais comuns episódios de vômitos e diarreia.
Por isso, recomenda-se associar um método de barreira, como o preservativo, ou optar por estratégias não orais nas primeiras semanas após iniciar ou ajustar a dose da medicação.
Os remédios manipulados em farmácia são muito mais baratos. Posso usá-los?
Essa é uma prática que preocupa as sociedades médicas. No Brasil, a semaglutida manipulada é proibida pela Anvisa, e a tirzepatida só tem autorização em caráter excepcional. Farmácias de manipulação não seguem os mesmos padrões de controle de qualidade, estabilidade, rastreabilidade e testes exigidos da indústria farmacêutica.
Isso aumenta o risco de concentração inadequada do princípio ativo, contaminação, falha de eficácia e efeitos adversos imprevisíveis. Por isso, o uso dessas versões deve ser evitado e sempre discutido com um médico.
*Por Marcella Centofanti, em colaboração para Marie Claire — de São Paulo (SP)
